Se, em Pacarrete, Allan Deberton apresentou um belo cartão de visitas do seu cinema ao retratar a sua paixão por uma arte que não dialoga muito com o gosto popular, tendo na atuação magistral de Marcélia Cartaxo o palco ideal para brilhar na personagem controversa do título, o novo trabalho segue o caminho oposto. No entanto, mantém as escolhas refinadas tanto na construção visual quanto na simplicidade do roteiro.

O Melhor Amigo mostra o realizador bem distante do drama emocionalmente amargo da obra anterior, para abraçar uma história descontraída sobre vivências amorosas a partir do romance queer. O filme se comunica com o gosto popular dos anos 1980, presentes nos objetos, situações e músicas deste período, que rodeiam os cenários onde os personagens interagem.

Originado de um curta-metragem homônimo de 2013, do próprio diretor, O Melhor Amigo apresenta o jovem Lucas (Vinicius Teixeira) que, depois de um desentendimento com o namorado, Martin (Leo Bahia), viaja para Canoa Quebrada, onde reencontra um antigo amigo de faculdade, Felipe (Gabriel Fuentes). A partir deste encontro casual, Lucas fica ainda mais confuso em relação aos seus sentimentos.

Um jeito gostoso de abraçar o brega para discutir as emoções

É interessante ver e acompanhar, em O Melhor Amigo, Deberton experimentando gêneros e possibilidades. O filme segue novos caminhos em comparação ao curta, construindo uma narrativa que traz um certo frescor e um jeito gostoso de abraçar o brega. Por meio dele, revisita-se o passado idealizado por meio das músicas e se projeta o futuro de Vinicius em relação ao drama do primeiro amor.

As cores vibrantes e a fotografia solar, fortalecida por detalhes dos figurinos e da direção de arte, ajudam a dar forma ao musical em uma Canoa Quebrada filmada de maneira sensual e mergulhada numa gostosa tensão sexual, com shows de drag queens embalados por músicas populares clássicas (destaque para Amante Profissional, do Herva Doce, e Conga Conga Conga, da Gretchen). Até mesmo as participações especiais de Mateus Carrieri e Claudia Ohana reforçam esse sentimento de nostalgia presente na história e no visual do longa-metragem.

O Melhor Amigo aproveita bem essa vibração LGBTQIA+ na primeira hora e consegue traduzir para o espectador o estado de espírito de Vinicius, um homem preso em si mesmo, que foge da realidade por sua incapacidade de viver o presente intensamente. O roteiro de Deberton, escrito em parceria com Raul Damasceno, Otavio Chamorro e Pedro Karam, desenvolve com delicadeza essa jornada de autoaceitação e libertação do protagonista em relação aos elementos pessoais conflituosos que o impedem de sentir e demonstrar seus sentimentos.

Nesse sentido, o filme diverte ao envolver o público neste romance ingênuo, misturado com um humor nordestino afiado, repleto de diálogos espirituosos, que provocam risadas por meio do conceito de representatividade da cena LGBT.

Fantasia musical, tanto para o bem quanto para o mal

Outro ponto de destaque é como O Melhor Amigo se apropria da fantasia musical para pontuar as resoluções dramáticas da realidade sentimental de Vinicius e dos personagens que o cercam. O roteiro utiliza as letras das músicas de maneira orgânica, como extensões das conversas, para dar uma dimensão emocional aos dilemas e conflitos dos personagens dentro do contexto musical.

Chama atenção que este contraste nas cenas musicais mais expansivas casa bem com a introspecção do protagonista, permitindo ao espectador compreender suas indecisões e inseguranças. Essa alternância valoriza a leveza do trabalho, oferecendo um respiro para o drama. Gosto como o próprio texto trabalha a questão do filme de gênero como um recurso onírico, que dá voz a Lucas para utilizar seus desejos, vontades e emoções como forma de quebrar paradigmas internos.

Se, por um lado, a dinâmica musical tem um timing invejável para produzir momentos de emoção, por outro, é notável que a questão da sexualidade poderia ser mais ousada, pecando numa encenação tímida, como se Deberton tivesse receio de ir além da provocação que seu trabalho traz nas entrelinhas em relação à liberdade sexual.

Isso também é sentido numa certa falta de densidade dramática do enredo. Curiosamente, o filme funciona melhor quando foca no clichê romântico do que quando tenta dar profundidade aos personagens em suas confusões, incertezas e inseguranças, o que reduz as possibilidades de uma aproximação empática com as problemáticas deles.

É claro que Deberton é esperto o suficiente para contornar isso, com um ótimo elenco: Vinícius Teixeira é uma boa revelação, sabendo extrair a timidez e melancolia de Lucas de maneira espontânea. Gabriel Fuentes usa com naturalidade suas atitudes e olhares para ir além do estereótipo do “homem gostoso”. Juntos, a química entre eles transborda afinidade. Os coadjuvantes também se destacam, em especial Leo Bahia e Denis Lacerda, que tiram a história da zona de conforto e abrem bons debates em torno das temáticas abordadas.

De todo modo, O Melhor Amigo cativa pela sua personalidade irreverente, que não tem a menor vergonha de abraçar o brega (e defendê-lo com força), equilibrando fantasia e realidade na narrativa e tendo muito culhão para fazer um musical queer nordestino. Apesar das suas limitações, consegue exercer charme e interesse no seu mote romântico, mesmo enquanto os créditos sobem.