Vivemos em um contexto absurdo de desenvolvimento tecnológico e de informação em que a cada dia algo novo se destaca e indivíduos, criadores dessas conexões e lugares, tornam-se influentes e poderosos. O novo filme HBO Moutainhead pretende contar como seria a relação entre essas figuras milionárias da tecnologia. 

A partir dessa dinâmica, Mountainhead, novo filme de Jesse Armstrong – criador da aclamada Succession – permite uma história que envolva quatro personagens cujas índoles são apresentadas desde o início, indicando personalidades bilionárias, excêntricas e com um senso desprezível de soberba acerca do mundo. A obra não esconde o caráter de sátira atribuída, haja vista o texto irônico e jocoso proposto, além da maneira quase unidimensional em que cada um do grupo é tratado, emulando figuras reais com elementos característicos. Logo, é preciso apontar a base do roteiro de Armstrong que se atém a fincar a estrutura da história em apenas um local dividido em cenários externos e, para tanto, se usa dos diálogos repletos de informações sobre tecnologia, ciência, propriedades e diplomacia na ação de destacar traços e intenções dos quatro protagonistas.

Venis (Cory Michael Smith), Souper (Jason Schwartzman), Randall (Steve Carell) e Jeffrey (Ramy Youssef) são seres de intelecto forte em muitas instâncias, ao mesmo tempo que banalizam atos e pensamentos destrutivos ao mundo externo se este atingir de algum modo seus interesses. Todos ali são magnatas da tecnologia moderna, listados como homens mais poderosos da atualidade e são realmente amigos. O grupo está reunido na casa de um deles, sem pretensões e mais ninguém no local. Aos poucos, Mountainhead (nome dado pelo proprietário Souper) expõe mais do que um simples encontro de amizade e descanso de trabalho, com certos elementos aflorando nas relações, especialmente, quando é revelado, enquanto o grupo está reunido, o contexto de crise política instaurada em várias regiões do mundo decorrente da operação desmedida de mídias e aplicativos, tendo como principal fator, a influência de um dos apps criados pela empresa de Venis que induziu o uso de Deepfakes, criando assim, um embate sociológico de Venis com Jeff, dono de uma empresa de reconhecimento de I.A (Inteligência Artificial).

Nesse sentido, o enredo segue a caminhar por escolhas até pertinentes como, por exemplo, a já citada crise política – com citações, inclusive à guerra Israel – Palestina, abrindo espaço para um debate sobre prejuízos e consequências do uso tecnológico deliberado e irresponsável em meio a cenários sensíveis. Perante isso, cabe dizer que Mountainhead segue mostrando a relação de todos os bilionários durante a estadia no local, dando ênfase ora para as consequências das crises políticas, ora pelo jeito que cada um intermede e estreita laços e interesses com o outro.

O deslize maior do filme se dá por meio dessa tentativa de dinamizar a história, onde a obra não se decide se quer trilhar por lugares mais sóbrios ou mais ácidos e cômicos, até que, em sua metade final, há um desandar de acontecimentos que guiam Mountainhead a ser algo mais escrachado, de um humor inesperado em que não existe certeza de equilíbrio, apenas a história arremete de sua própria conduta e se desfaz. A direção de Armstrong dificulta ainda mais, pois duela com seu próprio roteiro em buscar ângulos ocultos e fechados sem o peso narrativo a qual a obra pede devido ao teor cômico mais acentuado que o pedido. Talvez na vontade de ousar formular doses de Succession, tente recriar padrões, no que, infelizmente, não consegue.

Entende-se que, na escalação de um elenco presente com Steve Carell, Jason Schwartzman, Cory Michael Smith e Ramy Youssef já havia uma pretensão de atores com a mescla de drama e comédia, e funciona por uma parte do filme, porém, os desníveis alcançados são maiores que os êxitos.

Moutainhead tem boas intenções e ideias a serem consideradas, só que naufraga em sua própria existência ao não saber balancear as suas cargas. No final, a pretensão do filme está qual o tamanho do ego dos bilionários protagonistas, o que não diz absolutamente muita coisa.