“O Dia Que Te Conheci” é, em suma, um filme bom sobre pessoas boas. “Bom” não como competente ou apto, apesar de, nesse sentido, ser muito bom, de fato. É um filme, se é que é possível dizer isso de um filme, bondoso.

É curioso que o pôster tente enquadrar o novo longa de André Novais de Oliveira como uma típica comédia romântica. Eu gosto de Tom Hanks e Meg Ryan tanto quanto qualquer um, mas o filme de Oliveira está pouquíssimo interessado nos clichês e convenções do gênero. Oliveira é menos Norah Ephron do que Jim Jarmusch, se o nova-iorquino tivesse nascido em Minas e fosse um pouco menos melancólico.

Isso porque “O Dia Que Te Conheci” é estruturado a partir de uma série de acontecimentos cotidianos. Por 20 minutos acompanhamos a epopeia de Zeca (Renato Novaes) para chegar ao trabalho. Pelos 50 minutos seguintes, veremos seu laço com Luisa (Grace Passô) florescer. Tudo se desenrola ao longo de pouco mais de 24 horas.

Se o ritmo e o marasmo cotidiano dão o tom, é fundamental que o mineirês falado pelos personagens tome o primeiro plano. Essa especificidade parece ser mesmo um dos trunfos da Filmes de Plástico, produtora cujo nome aparece estampado em letras garrafais no cartaz após o sucesso de “Marte Um”. É difícil explicar o porquê, mas há algo de melódico e preguiçoso na fala mineira que se presta perfeitamente ao ritmo proposto por Oliveira. Assim, quando Zeca pede ao seu companheiro de apartamento, de forma mansa e contida, que, pelo amor de Deus, o acorde cedo na manhã seguinte, custe o que custar, as risadas surgem naturalmente.

Que tudo seja majoritariamente filmado em longos planos abertos denota uma dificuldade ainda maior. A montagem, do próprio Oliveira, é exemplar nesse sentido, porque sustenta o delicado equilíbrio entre os tempos gordos e as elipses necessárias, sem perder de vista os pequenos gracejos e momentos de humor.

Mas o mais complicado talvez fique a cargo dos atores, que precisam aliar o registro naturalista a um timing impecável. Cada pequena interação entre Zeca e o elenco coadjuvante é preciosa, mas os dois protagonistas são inegavelmente o motor de “O Dia Que Te Conheci”. Renato Novaes assume uma postura corporal capaz de sugerir doçura e certa passividade como Zeca, o que serve de contraponto à Grace Passô, que ganha a chance de ser sexy e expansiva. O encontro dos dois mal chega a 60 minutos de tela, mas podia durar horas a fio.

É difícil fazer o simples parecer fácil, e posso imaginar que a produção tenha exigido bastante esforço e preparação de Oliveira e seu elenco. O resultado, posto também em termos simples, é apenas o melhor filme brasileiro do ano. Impossível deixar a projeção sem querer se mudar para BH.