O combo irresistível de um personagem improvável dentro de um cenário isolado em um jogo de sobrevivência e resgate é um recurso bem comum em qualquer produção de suspense. São elementos sempre utilizados pois a combinação deles dentro da história oferece uma jornada de superação. Mantendo esse padrão, o thriller de ação O Frio da Morte, estrelado por Emma Thompson, surpreende ao apresentar uma abordagem mais melancólica em detrimento da tensão da trama.
O luto permeia a narrativa tanto na vivência da personagem principal como no lugar inóspito que a história se desenrola. O inverno ressalta a solidão e a falta de vida, pois as paisagens são cobertas por neve, o céu é nublado, as árvores tem um verde escuro uniforme. Todos esses pontos contribuem para a imersão emocional e reclusão do mundo exterior graças à fotografia, que traça muito bem esse paralelo entre o externo com o interno da protagonista.
O silêncio domina a atmosfera, porém o som é utilizado cuidadosamente como forma de causar apreensão. Tanto uma respiração ofegante como um estrondo ao longe ajudam a atiçar a percepção de perigo e desconforto. A trilha de Volker Bertelmann também traz um incômodo e um tom sombrio ao filme. Além disso, a obra mantém os pés na realidade, mesmo com algumas situações convenientes, existe uma linha verossímil que o roteiro segue.
O epicentro emocional está na figura da Barb, interpretada por Emma Thompson. A atriz convence bem como a viúva que vive à base de lembranças. Os flashbacks montam as memórias rápidas e agradáveis do passado, trazendo uma paz interior à personagem em meio às adversidades. Em nenhum momento O Frio da Morte a transforma em uma espécie de “John Wick feminina”, mas utiliza ela para quebrar um pouco a hegemonia de produções do gênero protagonizadas por homens. Quando sua rotina é interrompida por descobrir uma jovem presa em uma casa, a personagem entra em uma missão de resgate frenética para consolar seu vazio interno.
Entretanto, o filme fracassa em não desenvolver bem a relação de Barb com a jovem Leah. A conexão delas é bem frágil e sem o peso dramático necessário. A personagem não é nada além da vítima da situação. Em contrapartida, a vilã vivida por Judy Greer foge da zona de conforto da atriz, numa atuação sombria e desesperada. As suas motivações são compreensíveis e humanas, porém mais uma vez, o roteiro não estabelece bem, dando ar de algo que carece de mais aprofundamento.
Existe uma discussão bem promissora sobre o direito de viver que paira nas personagens de O Frio da Morte. O roteiro provoca essa reflexão em diferentes perspectivas sobre a vida. A desistência de viver, o medo de morrer e a busca para encontrar um novo propósito para continuar vivendo são alguns apontamentos que a obra traz. Infelizmente, o desenvolvimento é apenas superficial.
No cargo de direção, Brian Kirk, experiente no nicho televisivo, aproveita bastante o ambiente gélido e o magnetismo da Emma Thompson. Por mais que a realidade seja palpável, o diretor foca mais no drama e esquece de trazer uma tensão mais instigante. Esse desequilíbrio torna o filme arrastado em alguns momentos. O senso de perigo eminente existe, mas a montagem tranquiliza demais essa sensação. Apenas no ato final que o filme ganha um fôlego com uma conclusão agridoce, mas que dialoga com a jornada da protagonista.
Mais dramático do que deveria e menos tenso do que poderia, O Frio da Morte luta para achar um equilíbrio entre esses dois pontos. A condução irregular do roteiro e da direção diminuem as virtudes dos subtextos propostos. Associando o frio com a dor do luto, o longa invade o estado psicológico de seus personagens, traz performances sólidas de Emma Thompson e Judy Greer. A proposta temática é digna de atenção, apesar das limitações criativas.













