Na natureza forte de sua substância, o cinema brasileiro produz interessantes contos e histórias o tempo todo, e essa base se fortifica ainda mais quando se é abraçada uma identidade distinta dessas narrativas que não se intimidam ao destacar a autenticidade de várias culturas do Brasil: O centro do discurso é o pertencimento. Nessa trilha, Kasa Branca se mantém e integra sua crônica.
Ambientado em uma zona periférica do Rio de Janeiro, a história de Dé (Big Jaum) e de sua avó Almerinda (Teca Pereira) toca pela maneira como mostra e possibilita os laços, mesmo com o diagnóstico da doença de Alzheimer em estágio avançado, o rapaz não cede e busca subverter as frágeis condições de alguma forma. Por exemplo, na ajuda dos amigos Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco) a formar um trio inseparável onde existe um suporte para enfrentar os dilemas sociais da vida. Cientes do pouco tempo da idosa, Dé e seus amigos tentam encarar e prover à senhora bons momentos e aproveitar os dias que restam.
Dessa forma, a premissa simples se desenrola a partir da ligação de Dé para com a sua avó e todo o cuidado necessário que o rapaz precisa ter devido ao estado de saúde encontrado da senhora. Todo o cerne da obra se sustenta desse pilar, onde a construção do roteiro é apresentada por meio da dinâmica dos três amigos que possuem histórias singulares em suas propriedades, sem deixar de priorizar, claro, a relação de afeto e atenção de todos com Dona Almerinda. Aliás, a afetuosidade conduzida pelo filme é linda e palpável, onde cada ação ou gesto de personagem simboliza uma forma de amizade, parceria ou relacionamento assumido. A decisão criativa do filme estabelece um espaço repleto de coração, em um terreno situado por pessoas conscientes da realidade que vivem, muitos desses indivíduos são esmagados pela marginalidade econômica e estrutural e, ainda assim, não eximem de seu lugar, identidade e cultura. O filme acha a melhor versão em sua linha dramática pois há muita sensibilidade aflorada na relação de Dé com sua avó, o afeto gigante do garoto nas suas tentativas de reviver memórias desta, os olhares vazios de Almerinda. Nesses detalhes, a produção se sobressai ao saber balancear emoções genuínas sem apelar para um melodrama previsível a que muitos recorreriam.
Tendo em vista, Kasa Branca conta com belo trabalho do diretor Luciano Vidigal (também assina o roteiro do longa), onde aqui, em seu filme de estreia em direção solo, imprime sensibilidade e representatividade dentro do cenário da periferia de Chatuba – lugar onde a narrativa se passa. Cada tomada é cheia de significado para aquele universo e sujeitos; ora pela maneira de reproduzir a organização daquela sociedade, ora pelo teor de representatividade que vale a luta do povo negro em territórios desiguais. Vidigal explora um olhar que acusa os contrastes estruturais intermináveis, sobretudo, pela dificuldade de residir em locais de margem e conceber uma vida natural. Há cenas inseridas que refletem um tanto desse abandono do Estado em via de descaso e tratamento, como a passagem dos policiais perversos ao maltratar e humilhar dois personagens, a qual se ilustra a maneira que é vista habitantes da periferia e demais locais, além do espelho de uma segregação social presente. Cabe ainda ressaltar o trabalho de Fotografia de Arthur Sherman que é aplicado de forma sensorial, destacando cores cintilantes na paisagem que abriga o cenário da favela, principalmente nas cenas noturnas, fazendo do lugar, parte viva da história também.
Diante desses fatores, acredito que a narrativa desanda em certos elementos do roteiro quando não oferece a mesma dose de espaço a todos os seus personagens secundários, com pontos inacabados ou entrelinhas sendo deixadas na contramão da jornada conduzida. A participação do rapper L7nnon na história, por exemplo, por mais que seja feita de forma orgânica, não ganha maior destaque na relação com os personagens embora tente desenvolver, sobrando apenas o propósito central.
Com isso, Kasa Branca é belíssimo e comovente realização do cinema nacional. Relações de afeto e amizade predominam em obra sobre memória, identidade e cultura. Luciano Vidigal faz de seu universo criado, algo concreto e real, permite ser sentimental, sem deixar de explorar as devidas camadas sociais, além de erguer e valorizar o espírito e a face representativa de uma comunidade.














