O Morro dos Ventos Uivantes (1939), de William Wyler, tem a distinção de ser a primeira adaptação para o cinema do romance clássico de Emily Brontë, publicado em 1847. Bem, a primeira do cinema falado, pelo menos, pois há registro de uma versão até anterior a essa, de 1920, ainda na época do cinema mudo, mas hoje é um filme dado como perdido, segundo minha pesquisa. Isso demonstra o quanto o livro despertou interesse de produtores e cineastas ao longo das décadas.
A versão de 1939 tem pedigree: Teve oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, e foi dirigida por Wyler, um dos grandes artesões da velha Hollywood e que faria mais tarde sucessos oscarizados como Os Melhores Anos das Nossas Vidas (1946) e Ben-Hur (1959). O diretor de fotografia foi Gregg Toland, que depois viria a revolucionar a cinematografia junto com Orson Welles no clássico Cidadão Kane (1941). E tem um grande elenco britânico, com Merle Oberon, Laurence Olivier e David Niven como protagonistas.
O filme adapta a história trágica do livro, como uma história contada em flashback ao visitante de uma estalagem no morro do título: Conhecemos a história da rica família Earnshaw, que um dia encontra um menino diferente, o batiza de Heathcliff e o cria como filho adotivo/empregado. Com o tempo, dois sentimentos conflitantes começam a florescer no coração de Heathcliff (Olivier): um desejo de vingança contra a família e a alta casta da sociedade que o vê como inferior, e um amor pela jovem Cathy Earnshaw (Oberon), que também o ama. Já adultos, o tumultuado relacionamento entre eles tem consequências para todos ao seu redor.
Visto hoje, é um bom filme, mas não merece ser colocado entre os grandes trabalhos de Wyler. Dentre as suas qualidades, a fotografia, com Toland sendo um mestre do preto-e-branco, cria com eficiência a atmosfera de um conto assombrado, e os atores dão seu show. Olivier, em particular, se sai como a maior figura do filme: Seu Heathcliff é sombrio, pesado, com semblante sempre carregado, mas o ator também consegue imbuir seu personagem de algumas doses de humanidade.
E de fato, Heathcliff tem razões válidas para querer se vingar. O roteiro do filme explora a questão do conflito de classes, central para o livro de Brontë. Além de uma história de amor, que continua a conquistar fãs mesmo séculos depois, o livro é sobre as diferenças de classe na sociedade britânica – aliás, esse parece ser o grande assunto da ficção inglesa no geral. Há ressentimento e esnobismo contra o personagem, e por boa parte do filme nós ficamos do lado dele por causa disso, mesmo com Heathcliff não sendo uma figura positiva.
Há também um subtexto racial presente, pois no filme o personagem tem uma compleição de pele ligeiramente mais escura que os outros: Aos olhos das plateias de hoje, infelizmente a atuação de Olivier parece ser diminuída pela questão do leve “brownface” aplicado ao ator para torná-lo mais moreno. Mas, claro, obras de arte devem ser julgadas pelo contexto da sua época, e no fim das contas o ator, uma lenda do teatro e do cinema britânico, faz um bom trabalho aqui.
No entanto, percebe-se que o filme é autocontido demais. Quase todas as cenas são em cenários internos, e a narrativa é apressada: Heathcliff sai de cena e volta minutos depois já rico e poderoso, sem que isso seja explicado a contento; e o final com Cathy também é muito acelerado. Geralmente reclamamos de filmes que são longos demais; este aqui é um caso que deveria ter mais duração, pois com apenas 1h43 fica claro que o roteiro não dá conta de todos os eventos e complexidade do livro, e muita coisa teve que ser condensada.
Ainda assim, é um filme que se assiste com facilidade mesmo hoje. Wyler consegue conduzir a narrativa com fluidez e emoção apesar dos atalhos, e o cuidado com a fotografia e a direção de arte, todo o artesanato das velhas produções americanas e britânicas, ainda faz a diferença.
De fato, ao longo do tempo houve tantas versões para o cinema e TV de O Morro dos Ventos Uivantes que talvez nenhuma possa ser apontada como a definitiva. Cada geração tem a sua: lembro de ter assistido em vídeo, na infância, à versão de 1970 com Timothy Dalton e Anna Calder-Marshall que me deixou uma boa impressão; e tivemos a versão dos anos 1990 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes, que foi bastante reprisada na TV aberta brasileira. A versão de Wyler, um grande diretor, ainda mantém sua qualidade, apesar de já ter quase 90 anos de idade, e foi apenas o começo da obsessão do cinema, e do público, com Cathy e Heathcliff.














