Existem histórias que são tão peculiares e inacreditáveis que parecem extraídas de alguma obra ficcional. A todo momento, somos surpreendidos com a quantidade de situações noticiadas por veículos de comunicação que mostram a imprevisibilidade da vida real. A realidade serve como um grande alerta e aprendizado em um mundo tão caótico. Enraizada nesse conceito, a série documental original da Globoplay, O Testamento: O Segredo de Anita Harley é uma daquelas histórias singulares da realidade, que escancara a disputa pelo poder e da ganância humana, temperada por uma trama deliciosamente rocambolesca.
O roteirista da vida real estava inspirado quando escreveu essa história. São tantos acontecimentos, personagens envolvidos e reviravoltas que parecem vindas do diretor de cinema M Night Shyamalan. A empresária Anita Harley, em coma desde 2016 devido a um AVC, tem sua curatela disputada por diversas pessoas à sua volta. A bilionária, que já comandou uma das maiores redes de varejo, a Pernambucanas, é alvo de um controle de seus bens, desde supostas companheiras à filhos ilegítimos.
O caso do saudoso apresentador Gugu Liberato, falecido em 2019 também ganhou muita notoriedade e apresentava algumas semelhanças com o de Anita. O que esses casos trazem é mostrar as frágeis relações familiares, revelando o sentimento de egoísmo e mesquinhez do ser humano. Esses conflitos familiares lembram a dramédia italiana Parente é Serpente, de Mario Monicelli, lançado em 1992 que trabalha uma excelente reflexão sobre isso.
A narrativa do documentário começa com uma construção gradativa das suas peças e acontecimentos. Mérito do roteiro de Camila Appel, Ricardo Calil e Iuri Barcellos, capaz de estruturar muito bem cada elemento da história. As reviravoltas do caso aparecem de maneira engajante em que cada nova descoberta chacoalha as peças do tabuleiro em uma nova configuração. A curta duração e menor número de episódios ajudam a dar ritmo e fôlego para a trama.
A guerra de narrativas que a série promove se torna um jogo irresistível de acompanhar. Há uma variedade enorme de depoimentos, cada um dando suas versões naquele contexto. Todos os lados têm seu espaço e são ouvidos, garantindo ao público uma percepção mais macro da situação. Há uma preocupação em detalhar cada passo e novidade do caso, inebriando uma verdade difícil de decifrar. Além disso, o material de arquivo pessoal que a produção traz é rico em ilustrações, alternando com dramatizações simbólicas efetivas.
Contudo, a possível relação amorosa de Cristine e Anita não é contestada de maneira mais contundente, deixando uma pequena lacuna na trama. Por mais que ela tenha sido a secretária e braço direito da empresária, a produção não explora tanto a relação delas como fazem com a Suzuki.
Quando a própria diretora do documentário atua como uma das relatoras, ela funciona como o olhar do público, garantindo um norteamento dos pensamentos e acrescentando pontos intrínsecos para a trama. Através dos depoimentos, os conflitos familiares ficam mais complexos. Porém, a condução é extremamente imparcial, servindo para apresentar os fatos e os envolvidos.
Mesmo assim, há um teor cômico involuntário dentro da série, justamente pela forma como a história vai escalonando e novos componentes são introduzidos. Desde a suposta companheira de Anita, a Suzuki em algumas perguntas com o comportamento de “Isso eu não vou comentar”, do advogado performático dela Daniel Silvestri ou da Katarina Teixeira, que alega ter algum grau de parentesco com a Anita. Tudo isso ressalta as peculiaridades do caso e a natureza dos participantes, dando ao público ferramentas para tirar suas próprias conclusões.
Com um enredo de novela, O Testamento: O Segredo de Anita Harley é uma série documental envolvente justamente pelos meandros, surpresas do caso e da riqueza de detalhes contidos. Além disso, evidencia mais uma história de briga pelo poder e dinheiro e como relações familiares podem ser frágeis em um assunto como esse. Também é um lembrete sobre como ter dinheiro não é sinônimo de felicidade.














