“Se você ficar de olhos fechados, não é tão assustador”. Essa frase, que aparece um momento-chave de “Nina Roza”, novo longa da cineasta Geneviève Dulude-De Celles, se refere, na superfície, sobre o medo de viajar de avião, mas ganha tons simbólicos em um filme que se foca muito as partes de si mesmas que as pessoas escolhem não ver. O drama canadense, que teve sua estreia mundial na Berlinale desse ano, aborda as dores da imigração através de um ângulo novo e verdadeiramente tocante.
Apesar de duas de suas personagens terem seus nomes no título do filme, elas não são suas protagonistas. Esse papel cabe a Mihail (Galin Stoev), curador de arte búlgaro radicado no Canadá que recebe a missão de voltar ao seu país natal depois de quase três décadas para averiguar a veracidade das pinturas de uma criança prodígio, Nina (Sofia Stanina). Esse retorno o coloca em confronto direto com os fantasmas de seu passado (como a morte de sua mulher) e com as ideias que ele mesmo tinha sobre as circunstâncias de sua partida.
O roteiro, assinado por Dulude-De Celles e vencedor do Urso de Prata de Melhor Roteiro no evento alemão, trabalha com várias elipses e confia na capacidade dos espectadores de preencher certas lacunas da vida de Mihail. No entanto, ele não é vago ao ilustrar o impacto emocional das escolhas de seu personagem e as marcas (sejam de saudade, sejam de repulsa) que um processo migratório deixa na alma de alguém.
As imagens suaves do diretor de fotografia Alexandre Nour Desjardins e o design de som de Corinne Dubien e Gilberto Martinelli refletem a maravilha e distanciamento com os quais Mihail vê o país que deixou nos anos 1990: em seus olhos de hoje, a Bulgária é um misto de memória e imaginação – longe tanto literal quanto figurativamente da realidade que ele estabeleceu no Canadá – bem como um lugar ao qual ele não pertence.
Nesse panorama, Nina aparece como uma imagem oposta dele mesmo: uma menina completamente integrada ao seu entorno e feliz com a sua vida, que vê com ceticismo a possibilidade de estudar pintura fora, como desejam sua agente e sua família. Essa relutância dela em sair da terra natal instiga Mihail – e as discussões que eles acabam tendo falam muito sobre o valor da arte e sobre até que ponto alguém deveria abrir mão de si mesmo em nome dela.
Stoev é sensacional ao imbuir seu personagem com um senso palpável de deslocamento e dúvida. Seu Mihail se pergunta sinceramente se deixar o país e o luto para trás justificou a negação de sua cultura, o abandono de sua irmã e os períodos depressivos de sua filha – a qual, tem crescido no Canadá, não se sente nem canadense nem búlgara. É louvável a capacidade do ator de traduzir tudo isso sem perder a oportunidade de achar momentos cômicos nesse material, como na cena em que ele se apresenta ao vilarejo de Nina.
Ainda mais impressionante é a capacidade de Dulude-De Celles de retratar, de forma tão precisa, esse lado da experiência migratória mesmo tendo nascido e sido criada no Canadá. Com seu tom íntimo e observacional, “Nina Roza” a aponta como um talento a se observar. Enquanto muitos filmes sobre imigrantes se debruçam sobre as agruras da adaptação, eis um que investiga o que acontece depois da assimilação cultural e olha para a mala de mudança que, para algumas pessoas, nunca é realmente desfeita.













