Uma luz solitária em meio ao negrume pixelado é a única demarcação em tela do Pão de Açúcar, invisível para quem não sabe que ele deveria estar ali. É também a demarcação inicial do longo travelling, sem cortes, na maior parte do tempo, que constitui a duração de “Para Lota”.
Lota sendo, no caso, Lota Macedo Soares, idealizadora daquele que viria a se tornar o segundo maior parque urbano do mundo, o Aterro do Flamengo. Seus 8km de extensão serão percorridos pela câmera dos diretores Bruno Safadi e Ricardo Pretti ao longo dos 84 minutos de projeção. Na banda sonora, ouviremos cartas de Lota endereçadas ao governador do então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, que encomendou o projeto nos anos 1960. As cartas, lidas por Leandra Leal, irão narrar o processo de construção do parque e a dissolução da amizade entre Lota e Lacerda.
É estranho me ver transportado de volta ao Rio no meio de Tiradentes. Mais estranho ainda porque aquele não é bem o Rio que conhecemos: gravado na pandemia, o Aterro aparece completamente deserto, suas árvores refletidas contra a parca luz criando um clima de bosque mal-assombrado. Essa é a primeira fantasmagoria presente em “Para Lota”. A segunda são as próprias cartas: trata-se do fantasma de Lota, claro, mas também do de Lacerda, cujas respostas desconhecemos.
Há mais lacunas aqui em jogo: como a câmera percorre a extensão do parque lateralmente, há toda uma área do Aterro fora do campo de visão, uma área à qual só teríamos acesso caso a câmera decidisse virar para a frente. Em se tratando desse lugar mal-assombrado, perpetuamente incompleto, claro que podemos pensar também no fantasma do que o parque poderia ter sido: os planos de Lota contavam com bibliotecas, vestiários e até um restaurante.
Mas o maior espectro de todos aparece quando Lota tenta justificar a importância do projeto em meio ao descaso do seu outrora amigo: entre relatos de jantares com T.S. Eliot e visitas a New York, Lota adota um certo discurso de padroeira dos pobres. O parque, ela argumenta, seria vital para o lazer dos mais destituídos, aqueles que não podem visitar Copacabana, a saber, moradores do Catete, Glória e adjacências.
O problema é que a classe média do Catete está longe de ser o povo pobre invocado pela arquiteta. O Aterro, por mais belo que seja, segue sendo um local distante do subúrbio da Zona Oeste, por exemplo, região mais populosa da cidade e, ao mesmo tempo, mais marginalizada. Quem mora por lá sabe da luta que foi para a implantação do Parque Realengo na região, uma pauta dos moradores há anos que só se concretizou de fato, e com muitos poréns, em 2024. Em comparação, a Zona Sul precisou esperar relativamente pouco pela inauguração do Aterro — tempo que, para Lota, certamente foi marcado por batalhas intermináveis.
É estranho, portanto, que o filme compre o discurso de Lota sem questioná-lo, o que dá ao projeto um caráter hagiográfico um pouco frustrante. É também o que torna a fantasmagoria do filme estranhamente apropriada, quiçá a despeito das intenções de seus realizadores. Contei um total de sete figuras humanas transpassadas pela objetiva no filme. Uma delas, quase invisível, é um sem-teto, fazendo uma das passarelas do parque de telhado. A câmera registra essa presença embrulhada em cobertores por um ou dois segundos e segue em frente, impassível. É como se ela fosse um rolo compressor preparando o terreno para a próxima grande obra pública.











