Eis o mote inicial: Sueli Maxakali quer retomar o contato com o pai. Ele, a quem chamam Luiz, não é parte dos Maxakali; antes, é um Kaiowá andarilho, oriundo das bandas do Mato Grosso. De algum modo, ele foi levado para Teófilo Otoni, onde conheceu os Maxakali e a mãe de Sueli, antes de retornar para casa, anos depois.
Por que ele foi levado para tão longe? Porque estávamos na ditadura militar, e porque Luiz não tinha documentos, e porque os milicos aprisionavam os indígenas que, assim como ele, estavam soltos no mundo, forçando-os a trabalhar. “Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá”, codirigido por quatro cabeças (incluindo Sueli e seu marido), é uma espécie de carta ao pai, com o objetivo de mostrar ao patriarca a família que Sueli construiu. É também uma tentativa de reconstruir um capítulo obscuro da história brasileira.
Mas há uma terceira faceta em jogo, talvez ainda mais importante. Quando a equipe de filmagem entra em contato com os Kaiowá, Luiz, a princípio, se recusa a aparecer. Mania de velho, afirmam seus parentes. O que todos logo compreendem é que não se pode convencer ninguém de nada, tampouco vencer sua teimosia, com apenas uma hora de conversa. É preciso conviver juntos, compartilhar as vivências, afinar os cânticos na mesma frequência.
Pois bem: o que este filme faz é nos convidar para uma partilha. Aqui está a família de Sueli, aqui está seu idioma: entremos em sua frequência. Estamos sendo convidados para um mundo que não conhecemos. Resta-nos ouvir a tudo atentamente. Quem sabe um dia aprenderemos a falar a língua.
Impressiona, então, o modo como as práticas ancestrais desses povos dividem espaço com as tecnologias do Ocidente. Suas canções e seus idiomas sobrevivem ao longo das gerações, ao mesmo tempo em que eles selecionam e incorporam o que precisam dos brancos; celulares, por exemplo, tornam-se uma forma de se comunicar entre as aldeias.
E há o cinema, claro, aqui representado também pelos apagões da câmera manuseada pela equipe, que o filme não procura esconder. É que a câmera e o cinema se tornaram um prolongamento da vida dessas pessoas. Se não há fronteira que os separe, então não há por que esconder os contratempos do fazer-cinema.
A lição que fica é que Sueli e os Maxakali souberam muito bem como se apropriar das ferramentas dos brancos e adaptá-las à sua forma de vida. Se nós, não indígenas, temos alguma ambição de permanecer nesta Terra, então precisamos incorporar também as ferramentas dos povos originários. É o único caminho.













