Bolha assassina, pneu assassino, geladeira assassina… Com um pouco de criatividade, qualquer objeto inanimado pode ganhar vida no cinema e se tornar um perigo ambulante a todos ao redor. Em “Privadas de Suas Vidas”, o nome não deixa muita dúvida sobre qual é a ameaça da vez: sim, isso mesmo, privadas.
É uma premissa no mínimo inusitada e bem-humorada: em um condomínio no “energicamente carregado” centro de São Paulo, as privadas magicamente ganham vida em um fenômeno cósmico inexplicável e passam a atacar seus moradores. Essa ameaça iminente paira sobre a vida já nada tranquila de Malu (Martha Nowill), uma produtora de eventos que precisa lidar com o luto pelo filho, que morreu ainda criança justamente em um acidente com uma privada. Corta pros dias de hoje e o acidente traumatizou Malu a ponto de ela não conseguir mais usar o sanitário normalmente. Além disso, ela tem dificuldades em se relacionar com sue outre filhe rebelde, Gênesis (Benjamin), ume adolescente não-binárie que a protagonista insiste em chamar pelo nome morto.
Ao redor de Malu orbita ainda uma galeria de personagens que por si só oferece mundos curiosos à parte: um zelador prestes a ser demitido por conta do avanço tecnológico no condomínio; uma gringa mística do “scat” (sim, é isso mesmo que você leu); uma idosa levemente folgada e cleptomaníaca; e uma influencer disposta a tudo para monetizar a sua gravidez nas redes sociais. Afinal, o que seria de privadas assassinas sem suas vítimas em potencial?
“Privadas” nasce do amor declarado da dupla de diretores Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner pelo cinema trash oitentista, o que se reflete claramente em todo o filme, desde sua fotografia granulada até a explosão escatológica de fluidos na tela: haja fezes, vômito, sangue e mortes elaboradas, ainda que, por boa parte do seu segundo ato, o longa seja até relativamente polido quanto a isso, enquanto investe num suspense em torno dos sanitários assassinos.
Esse banho de bosta literal serve para uma série de tiradas bem-humoradas do roteiro (e referências especiais para as pessoas “cronicamente online”), mas também tem como fim contar uma jornada de luto, trauma e aceitação, muito bem carregada emocionalmente por Martha Nowill no papel de Malu. Felizmente, “Privadas” não incorre no mesmo problema de tantos terrores contemporâneos de construir uma metáfora que ofusque o próprio filme. O melodrama de Malu e a ameaça trash das privadas assassinas caminham lado a lado, por vezes se sobrepondo um ao outro de uma forma que afeta o ritmo da trama, mas pelo menos alcançando um excelente momento de catarse final à lá “A Morte do Demônio”.
Ao final dessa jornada, a lição que fica é poderosa e bem literal: às vezes, tudo o que precisamos é cagar.
“Privadas de Suas Vidas” integra a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.













