Que bela confusão: “Queer”, novo filme de Luca Guadagnino, é uma viagem à sala da mente onde amor, luxúria e vício se encontram para dançar. Exibido no Festival de Londres após estrear em Veneza, o longa entrega estilo de sobra e uma performance estupenda de Daniel Craig, mas o ritmo arrastado pede paciência de Jó do espectador.
Craig é Lee, um americano que passa os dias no México dos anos 1950 entre doses de álcool, heroína e sexo casual. Quando o marinheiro Eugene (Drew Starkey) vai parar na sua vizinhança, ele vira a razão de existir. Os esforços para conquistá-lo desencadeiam uma sequência de eventos que leva ambos a uma jornada de desejo, codependência e, eventualmente, ayahuasca.
O coração entorpecido de “Queer” bate mais forte quando convida o público a se perguntar se isto é uma história de amor ou obsessão. De sua parte, o roteiro de Justin Kuritzkes está menos preocupado em responder do que em sugerir que, se você for sensível e desesperado o suficiente, a linha entre os dois é imperceptível.
Para fazer esse ponto, Lee é um protagonista ideal: eis um cinquentão perdido em um mundo de hedonismo para rebater um profundo senso de solidão. A relação que ele tem com Eugene traz algo de inerentemente auto ilusória (ou no linguajar moderno, delulu), mas que ele esteja disposto a ir até os recônditos da América do Sul para se certificar dela o pinta com cores decididamente tragicômicas.
O gênio de Craig é fazer o público acreditar nesse personagem complexo e contraditório, que rejeita rótulos e identidades quase ao ponto da auto-anulação. Ele entrega uma performance livre e destemida, indo aos extremos da vergonha e da resiliência. O elenco de apoio tampouco faz feio. Ainda que “Queer” seja inegavelmente de Craig, Jason Schwartzman e Lesley Manville – quase irreconhecíveis em seus respectivos personagens – elevam todos os momentos em que aparecem. Quem sai por baixo é Starkey, que não tem muito o que fazer para além de ser um obscuro objeto de desejo.
É difícil conciliar a abundância do talento na tela – a fotografia de Sayombhu Mukdeeprom é um show em si mesma – com a capacidade que o filme tem de alienar ou mesmo aborrecer o público em certos pontos. Guadagnino se permite todo o tipo de cenas delirantes e desvios narrativos, fazendo a produção se arrastar durante boa parte de suas 2h18min de projeção.
Nos momentos mais inspirados, “Queer” funciona como uma meditação da solidão homossexual, com ecos do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. Porém, aos junkies cinéfilos de plantão, fica o alerta: a dosagem aqui é alta e nem todas as partes da viagem lisérgica vão bater bem.














