“Robô Selvagem” é aquele tipo de animação feita para a família toda. De forma envolvente e carismática, o filme dirigido por Chris Sanders toca em temáticas já vistas em outras obras do diretor como “Lilo & Stitch” e “Como treinar seu dragão”. Aqui, embora já as conheçamos e tenhamos vistos em muitos momentos no cinema, não deixa de arrancar risos e lágrimas.
Acompanhamos Rozzum, uma robô de tarefas domésticas que cai em uma ilha habitada apenas por animais. Criada para ser lógica e pragmática, a robô vai em busca de tarefas que possa cumprir, enfrentando a rejeição e a curiosidade dos bichos. Nesse processo, ela ocasiona um acidente fatal tendo como único sobrevivente um ovo, que eclode um pequeno ganso, o qual acredita que Rozz é sua mãe. Dessa forma, o roteiro inspirado de Sanders, discute maternidade, propósito e convivência.
Acredito que o fio condutor de “Robô Selvagem” é a busca de propósito, vista a partir do ponto de vista da maternidade. Rozz está aceitando sua missão de ser mãe, ao mesmo tempo em que seu processo nos evidencia o quão complexo é esta relação que tem marco de início, mas nunca chega ao fim. Assim, há um contraponto interessante e que dificilmente pensamos dentro dessa lógica que é o quanto mãe e filho estão aprendendo juntos a se compreender e a encontrar seu lugar no mundo. Um vínculo muito mais intrincado quando os laços que unem vão ao encontro do que sua programação (ou natureza) predeterminam.
Rozz assume a tarefa de ensinar os três princípios básicos para a sobrevivência de um ganso: se alimentar, nadar e voar. Este é um processo difícil, uma vez que isso não faz parte da sua programação e nem tão pouco ela é o indivíduo indicado para ensinar isso a Bico Vivo. E é justamente nesses pontos antagônicos que a magia de “Robô Selvagem” acontece, porque Rozz é um personagem extremamente empático tanto em relação ao que acontece em cena, quanto para nos despertar essas sensações. Ela segue sendo rejeitada pelos outros animais e vista como um monstro por eles. É em Astuto, uma raposa que justifica sua nomenclatura, que ela vai encontrar um companheiro para ajudá-la na criação de Bico Vivo. Assim, formam uma família disfuncional que busca oferecer ao garoto ganso todos os meios para que ele possa ser como os outros de sua espécie e migrar quando o inverno chegar.
Sanders constrói essa relação de forma ágil, sem ser piegas ou romantizada; o que a enriquece, uma vez que todos os personagens centrais têm algo a aprender e evoluir emocionalmente. Ao mesmo tempo, a ambivalência da maternidade é latente nesta produção, não deve ser fácil para um pai ver seu filho ganhar asas e conquistar seu lugar no mundo, mas não deve ter orgulho maior para um genitor do que ver sua cria encontrar o lugar ao qual pertence. O roteiro consegue transpor essa sensação de maneira sensível e tocante. Compreendemos Rozz, mas também compreendemos Bico Vivo e Astuto. Com isso, Sanders faz uma sequência emocionalmente absurda já no meio da narrativa, sem a necessidade de guardar o melhor para o último bloco e nem tampouco diminuir os grandes e comoventes momentos da trama. Devo confessar que foi impossível não ficar desidratada desde a cena do treinamento do menino ganso.
Já que falamos em sequência, vale a pena destacar o visual de “Robô Selvagem” e sua paleta de cores. A animação tem muitos detalhes que tornam a floresta um personagem a mais, principalmente por mergulhar na beleza do multicolorismo presente na natureza. O que acaba por encher os olhos de todo o público, principalmente do infantil. Esse encantamento também se estende a Rozz e todas as minúcias tecnológicas que o visual dá conta, lhe oferecendo até mesmo mais camadas para serem exploradas.
Este é um filme sensível, tocante e, que sinto, feito especialmente para quem precisa compreender a maternidade com suas ambivalências e complexidades. De forma simples, Sanders nos entrega uma animação capaz de falar conosco e de nos mostrar a preciosidade de encontrar o nosso lugar no mundo ou apenas o nosso propósito. Afinal, todos temos um pouco de Rozz, Bico Fino e Astuto.













