Tirando os cidadãos de bem com toda a sua febre de justiçamento a qualquer custo, é difícil não gostar de Sing Sing. Afinal, trata-se de um filme mais do que bem-intencionado ao mostrar os efeitos do Rehabilitation Through the Arts, um programa social real dentro de um presídio dos EUA, em que os detentos participam de atividades teatrais e artísticas. No elenco, temos um grande ator – Colman Domingo – ao lado de um conjunto de não-atores interpretando versões de si mesmos. É a arte como alento e libertação simbólica diante de um cenário de tensão constante.
No segundo longa de sua carreira, o diretor Greg Kwedar sabe que não está ali para reinventar a roda, mas para ser um instrumento que permita a aquelas pessoas se sentirem à vontade para se soltar na frente das câmeras. Com isso, a forma como a câmera se insere nas reuniões do grupo, de maneira gradual, e a construção das sequências sem pressa, permitem que essas importantes e fundamentais interações ganhem tempo longo em Sing Sing. Aliás, rende o ponto alto do filme o exercício em que todos apresentam os personagens que irão fazer na peça, devido à construção da aliança e confiança necessárias para que se entreguem ao desafio, além da oportunidade de terem um instante de liberdade e sonho.
Claro que Sing Sing não escapa dos cânones dos filmes de prisão. Logo, para quem assistiu a Um Sonho de Liberdade ou À Espera de um Milagre, certas situações são mais do que esperadas, o que faz a produção caminhar por trilhas para lá de previsíveis. Assim, espere um acontecimento ‘inesperado’, uma prisão por motivo injusto e a transformação do durão em um sujeito mais sociável e até legal à medida que o projeto e os demais colegas vão o transformando em uma atuação mais simbólica do que fora da curva de Clarence Maclin.
Cabe a Colman Domingo ser aquilo que faz Sing Sing sair da estrutura inicial para se tornar algo um pouco mais marcante. Ao lado do sempre competente Paul Raci, o ator indicado ao Oscar por Rustin desequilibra o drama, fazendo John Divine G. Whitfield, o qual, diga-se de passagem, aparece em uma pequena participação especial. Basta o olhar cuidadoso de quem consegue enxergar aqueles prisioneiros para além do crime que cometeram (em alguns casos, nem isso), algo negado pelo Estado e por grande parte da sociedade, para que o personagem estimule o melhor de seus companheiros. A maneira como Colman demonstra a generosidade de estar ali, totalmente integrado e sem preconceitos, comove do lado de cá e de lá da tela.
Como se não bastasse, o astro dimensiona ainda as pressões da crueldade do sistema penal e judicial norte-americano, especialmente na incerteza das apelações para a revisão do próprio caso, mesmo com a evidência de inocência. Uma panela de pressão feita para destruir o psicológico de qualquer um, e que abala até mesmo os mais resilientes. Atuação absurda de Colman.
Mesmo sem ampliar o alcance social e histórico como faz Filhas (Daughters), documentário disponível na Netflix também sobre outro programa social dos presídios norte-americanos, Sing Sing consegue ser uma obra capaz de mostrar a importância da arte como uma janela de oportunidade de recuperação para aqueles que muitas vezes são considerados irrecuperáveis. Em um mundo tão doente de ódio e intolerância, acaba sendo uma ponta de esperança.













