Dois elementos se encontram em “Filhas”, documentário dirigido por Natalie Rae e Angela Patton, e o tornam um filme comovente: a paternidade e a negritude. A produção cobre quatro meninas e seus pais que participam do programa “Encontro com o papai”, uma iniciativa que visa realizar um baile de gala em que pais encarcerados acompanham as filhas por uma noite em um típico baile norte-americano. Diante desse evento, o filme, disponível na Netflix, discute variadas camadas de como essas meninas lidam com a separação paterna enquanto crescem.

Aubrey, Santana, Ja’Ana e Raziah tiveram convívios diferentes com seus progenitores, o que desencadeia uma multiplicidade de olhares sobre seus pais e a relação que há entre eles. Por meio do relato dessas meninas, que estão em fases distintas de crescimento, as diretoras oportunizam perceber como a ausência de um pai presente as atinge, influenciando diretamente em como levam suas vidas.

Os depoimentos são sutis e, ao mesmo tempo, violentos se considerarmos o quão crianças são e quanta dor carregam por amarem alguém que não pode estar fisicamente em seu cotidiano. O baile assume para elas uma maneira elegante e leve de ter os pais em sua vida nem que seja por uma noite e/ou por todo o período que se preparam para a grande noite. Dessa forma, o projeto – tanto o registrado pelas câmeras quanto o filme disponível – oferece um vislumbre de como essas famílias, separadas por escolhas equivocadas e o sistema de justiça, podem encontrar um caminho para a cura das feridas emocionais. 

Vale ressaltar que, desde 2014 muitas prisões norte-americanas não permitem visitas presenciais, então este, para muitos personagens de “Filhas”, é um momento raro de troca de contato físico. Chamou minha atenção como a montagem nos encaminha para que conheçamos cada menina, suas particularidades e também seus pais com a angústia que carregam pelo distanciamento e por se tornarem parte de um ciclo que tem muito a ver com a questão de classe e de raça norte-americana. A construção é pertinente, ainda, para humanizá-los e desmantelar o senso-comum e a imagem preconceituosa que reflete sobre homens negros. “Filhas” se preocupa em destacar o poder que há quando esses homens, que recebem intervenção do racismo e do patriarcado, discutem sobre amor próprio e paternidade de forma aberta e desvinculada de amarras. 

Neste aspecto, o ponto alto do filme não deixa de ser a cena da dança e a despedida. O encontro entre pais e filhas, com o primeiro momento permeado pelo estranhamento entre pessoas que se amam, anseiam por ver-se, mas quando isso acontece não sabem como lidar. Contemplamos a filha que não lembra da voz do pai, mas não consegue encarar seu rosto; a menina que atentou contra si mesma por temer criar lembranças em que seu pai não está e, na hora do baile, não consegue parar de sorrir e abraçá-lo; a filha que assumiu o papel de pai de suas irmãs e que não quer dançar, mas comer ao lado do pai e a menina que aprendeu a fazer várias contas matemáticas para aliviar o tempo de seu crescimento longe do pai. 

A dança se torna o momento em que todas essas emoções são abordadas sem precisar de palavras, apenas ações, gestos e as expressões que tomam conta deles. Esse é um espaço e tempo para se eternizar, para o qual se quer voltar e permanecer. O espaço dominado pelo toque e pela conexão. A câmera de Michael Cambio Fernandez consegue captar a infinitude que este momento cristaliza para essas famílias, por isso a reação deles com a partida delas é importante, uma pena, contudo, que seja rápida e não consiga evidenciar como elas se sentem, apenas mostrando-as retornando para as mães e para suas realidades. Um ponto baixo dentro de um filme que se preocupou tanto em mostrar como se sentiam durante e antes do encontro com os pais. 

Ainda assim, “Filhas” é um relato comovente sobre a paternidade e busca pela cura familiar. Os personagens que Rae e Patton acompanham são tangíveis, carismático e tem sua parcela de identificação. Um outro olhar sobre como o sistema penitenciário afeta a vida das pessoas entorno dele.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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