Que filme curioso é esta produção alemã Sound of Falling, segundo trabalho da diretora Masha Schilinski. Não é uma narrativa construída com uma dramaturgia tradicional, mas sim uma série de reflexões sobre vários temas, que saltam no tempo e são unificadas pelas vidas de meninas e jovens mulheres de uma mesma família, ao longo das décadas.
Temos uma adolescente que anda de muletas e amarra uma das pernas com fitas, para saber qual a sensação de não possuir o membro – essa é a cena inicial do longa. Temos a sua irmãzinha, que posa para uma foto na mesma posição em que a avó morreu. E ainda aparecem uma jovem vivendo as inseguranças da adolescência, e outra que fantasia deitar no campo, diante de uma enorme ceifadora de grãos. Todas fazem parte de gerações de uma mesma família, vivendo em diferentes épocas numa região rural da Alemanha.
Schilinski não parece interessada em “desenvolver” nenhuma dessas personagens, não no sentido como geralmente estamos acostumados. A diretora/roteirista as usa para criar situações ora naturalistas, ora oníricas, para evocar sensações e trabalhar, de forma muito solta, temas como a condição feminina, trauma, alienação, inadequação e morte. Sobretudo este último: fazia tempo que não via um filme com tantas imagens que remetem à morte, e as quatro personagens falam sobre o tema diversas vezes, em voiceovers que nos permitem conhecer seus monólogos interiores.
Isso faz de Sound of Falling uma experiência mais sensorial do que propriamente emotiva: há alguns momentos muito bonitos ao longo das quase 2h30 de duração. O filme também brinca com a saturação da imagem, fazendo com que às vezes ele pareça uma gravação antiga de um tempo distante. A câmera às vezes está bem próxima dos personagens, em outros parece flutuar como se fosse um ponto de vista espectral. Muitas vezes, a transição de um período temporal para o outro é feita por meio do som – algum zumbido ou barulho de queda, como a que explica o título – e o longa realmente tem um trabalho sonoro muito interessante. E apesar do tom sério, há alguns momentos de humor sombrio espaçados aqui e ali para não deixar que o clima se torne muito lúgubre.
É uma experiência, claro, que não deve funcionar para todos os espectadores. Mas há força imagética e momentos suficientes para manter a atenção de quem se dispor a encará-la. Mesmo que não funcione de forma coesa em todos os momentos, Sound of Falling ao menos garante sua disposição de mexer com o espectador.












