Toda a mística envolta do Monte Everest reforça o sentimento de atingir o impossível, da idealização de lutar pelos nossos sonhos, independentes das adversidades impostas. Por ser a montanha mais alta da terra, ela também é um contato mais próximo ao céu, a sensação de conquistar o inconquistável. Nessa escalada, Tenzing, da Apple Tv, relata a história de superação de Tenzing Norgay ao alcançar o topo do Everest como forma de ressaltar seu legado histórico no alpinismo. Mesmo com uma condução correta, o filme se acomoda em excesso na sua mensagem positiva e esquece do seu tempero ficcional.

A primeira tarefa que o filme cumpre com êxito é servir como uma reparação histórica. Toda a experiência e perseverança de Tenzing foram fundamentais para a conquista da expedição. Longe de ser um mero ajudante dos britânicos, ele foi o maior diferencial dessa história. O longa ressalta esse conceito, colocando-o como centro emocional da narrativa. Na época, seu destaque foi diminuído por elitismo e preconceito. A direção de Jennifer Peedom e o roteiro da própria cineasta ao lado de Luke Davies e Ed Douglas têm consciência disso e assumem a responsabilidade de dar os devidos créditos a quem de fato merece.

A forma como a montanha é vista em diferentes perspectivas ajuda a entender cada um dos grupos. Enquanto os britânicos enxergam como algo a ser conquistado, os sherpas tem um olhar mais íntimo e sagrado. Porém, o filme não desenvolve mais as desigualdades entre os montanhistas e os exploradores britânicos, muito menos a disputa de reconhecimento pelo feito. Essa suavizada deixa a narrativa sem substância em que os conflitos são superficiais. O longa demonstra receio de tocar nas polêmicas, estacionando em uma zona de conforto.

A história de Tenzing é acima de tudo sobre superação e não desistir dos seus sonhos. Desde criança, ele nutre o desejo de chegar ao cume do Everest. A sua perseverança inspira pela serenidade e contemplação que ele encara sua ambição. A atuação de Genden Phuntsok passeia por esses sentimentos da mesma forma que transmite uma gentileza simpática. A sua relação com Edmund Hillary, de Tom Hiddleston, é singela e sutil, salientando a importância que a cooperação que os dois tiveram nessa trajetória.

Contudo, a positividade excessiva deixa uma redundância desnecessária ao longa. Os flashbacks intercalados com o presente são a principal causa disso, pois fragmentam a trama e ressaltam informações já claras pelo roteiro. Vários momentos do personagem criança expressando sua vontade e diálogos com a esposa incham o ritmo, que se estende mais do que deveria.

A diretora Jennifer Peedom capta com perfeição a montanha e seu exuberante tamanho. A câmera e a fotografia mostram a beleza das paisagens, da imensidão do branco, da importância do objetivo e da pequenez do homem diante o Everest. O desafio de escalar o monte aparece pela maneira como Jennifer constrói a relação da expedição com o cenário com naturalidade.

Por ter uma vasta experiência em dirigir documentários, Jennifer encontra dificuldades em se jogar mais no entretenimento. A tensão e os obstáculos que a montanha traz não possuem muito impacto. Os perigos surgem e são resolvidos sem muitas dificuldades, não há suspense ou temor pela vida dos personagens em nenhum momento. A banalização desses momentos tira o peso narrativo do significado da vitória e dificulta a imersão do público naquele cenário de sobrevivência.

Comprometido na reparação histórica, Tenzing tem uma mensagem otimista para se orgulhar. Um singelo tributo à contribuição do alpinista para a humanidade, mostrando que nem mesmo o Monte Everest é páreo quando existe força de vontade para lutar pelos seus sonhos. Infelizmente, a busca por respostas cômodas, a falta de uma direção mais firme e um aprofundamento raso do período evidenciam as limitações da produção e diminuem consideravelmente a sua repercussão cinematográfica.