Foi em “The Seed of the Sacred Fig” que vi a cena que mais me impactou em uma tela de cinema neste ano. O som e a fúria em uma pia que é preenchida de sangue e projéteis são símbolos da crueldade e da violência de quem deveria ser lar e conforto. A paranóia é uma panela de pressão mexida pelo patriarcado.
O filme do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof chegou ao Festival de Cannes com os olhos voltados para seu extra-campo: a condenação do diretor pelo Estado Islâmico, o exílio e a primeira aparição pública dele justamente na Croisette. É interessante traçar um paralelo entre o que está na ficção e o que está na vida, e não apenas pelo que ocorreu com o diretor às vésperas do lançamento do filme em Cannes.
“The Seed of the Sacred Fig” se comunica com o público pela construção da história focada em um homem que precisa viver com sua família em um anonimato forçado pela sua profissão de juiz. Quando a arma dele some, se instaura um cenário de tensão constante entre ele e as filhas.
Na tela, Rasoulof cria um jogo de gato e rato entre pai e filhas. Esse cenário de tragédia é desenhado em paralelo aos protestos pela morte real da garota Mahsa Amini, assassinada após se recusar a usar o hijab.
É um filme que reflete o tempo presente não apenas por escancarar o patriarcado dentro de casa. Quando lembra de forma constante que há, sim, o poder de revolução na internet, Rasoulof reforça o contar de sua história, ainda que com imagens pesadas e gritos agudos. Ao inevitavelmente colocar a mãe das jovens como efeito colateral, mediando as relações ou tomando partido, ele lembra que decisões podem ser tomadas em detrimento do próprio destino, mas conforta ao lembrar que ainda há como encontrar refúgio em meio à crueldade.












