Tantas são as produções que retratam a passagem da infância e suas descobertas de maneira intensa, ao passo que algumas destas são ambientadas durante períodos específicos de guerras ou conflitos, criando assim, um dualismo agridoce de se acompanhar. Filmes como Vá e Veja, Império do Sol e Túmulo dos Vagalumes são exemplos de obras que mostram a infância sendo interrompida pela impiedade da guerra. A animação japonesa Totto-Chan é mais um desses retratos poderosos que ilustram a inocência da infância a conter como pano de fundo um cenário assombroso e triste.
O território de um Japão da década de 1940 se torna a base da história de Totto Chan – A Menina na Janela, adaptação de um conto autobiográfico escrito pela autora Tetsuko Kuroyanagi. Tetsuko, ou Totto-Chan (como carinhosamente é chamada pelo pai), é uma menininha de 7 anos com uma personalidade bastante especial; sua hiperatividade e curiosidade de tão grandes são vistas de maneira estranha por alguns, principalmente na escola em que estuda. Após ser expulsa de lá, a mãe a leva para fazer parte de uma instituição com métodos mais flexíveis do modelo educacional, onde se sente acolhida e livre, além de manter fortes relações com o diretor da escola e com o amigo Yasuaki que conhece no lugar.
A partir disso, a Escola Tomoe Gakuen é parte fundamental para a personagem Totto-Chan, pois lhe oferece uma nova perspectiva a respeito da educação escolar, tendo em conta que era aluna de um instituto que prezava o ensino tradicional e não fugia de maneira alguma dessas medidas. Muito dessa dinâmica de importância da Tomoe se dá pela forma como recebe e ampara crianças consideradas incomuns naquele cerco social. Nessa desconstrução ao sistema funcional, ao permitir meios de ensinamentos mais progressistas – como o uso da música, danças e demais atividades -, a animação mostra quão bela é a presença desta escola para todas as crianças.
Dos traços singelos até a história encantadora, Totto Chan – A Menina na Janela sabe da força de seu material e estabelece muito rapidamente o caráter da narrativa, pois, ao dar enfoque total às características da protagonista logo de início, nos garante uma imagem subjetiva que será importante não só para entendê-la, mas como todas as nuances da obra. Nesse sentido, é fácil criar uma ligação íntima com a protagonista que destila ingenuidade e charme em tela, da qual, seu espírito de generosidade e imaginação, rende boas cenas. Um bom exemplo é a interação de Totto com seu amigo Yasuaki; o garotinho possui dificuldades para andar devido à condição de poliomielite, e isso o impede de tentar muito esforço, porém, Totto, à sua maneira, incentiva o menino a brincar e buscar pequenas experiências.
Para tanto, quanto mais a animação alinha a beleza de Tomoe e a relação de Totto-Chan para com o mundo, também prepara a quebra de equilíbrio que será a participação maior do Japão na Segunda Guerra Mundial. Na verdade, em momento algum, a produção esconde o contexto, com pequenos momentos no fundo das cenas, como um crescimento do militarismo nas ruas. Tal avanço do tempo – visto que se passa entre os anos de 1940 – 1945 – situa a história na inevitável transformação social e econômica que o país teve naquela época. Com o tempo, alimentação, educação, arte e saúde viram questões precárias no Japão que segue por um processo uniforme – do já citado – militarismo, impactando de uma vez a sociedade japonesa, e, no sentido do filme, a infância de Totto-Chan e de tantas crianças.
A formação visual e estética do longa da Shin-Ei Animation se destaca pelas marcas características que adota e toma para si, em que se fazem presentes: linhas e contornos delicados das aparências dos personagens, bem como a das paisagens do Japão, além do belo uso de cores conferindo tons de expressividade firmes em cada composição cênica. Durante o filme, há duas passagens marcantes quanto à questão de mudança visual que representam o sentimento da personagem: um momento de liberdade e outro fuga da realidade; estas cenas em questão, carregam rimas oníricas e poéticas adoráveis. Quando ocorre a transição na narrativa para o período da Segunda Guerra assolando o país, o filme também perde cor, dando espaço a ares sombrios e neutros que cobrem lugares outrora vibrantes. Árvores, jardins e campos perdem espaço para soldados, armas e bombas.
Ao reconhecer todos esses elementos, Totto-Chan – Uma Menina Na Janela é emocionante e mais um daqueles encontros onde arte, beleza e dor se materializam. Mesmo repleto de tanto amor e encanto, a presença cruel e nefasta dos conflitos humanos pode destruir o mais belo dos cenários. Atingir até mesmo, o mais puro dos lugares: a infância de uma criança.














