Em “Pedagogia da Autonomia”, Paulo Freire afirma que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Essa frase se encaixa como uma luva para a proposta do Instituto Tukán, uma universidade indígena que se localiza na Terra Indígena Arariboia, no município de Amarante do Maranhão. É sobre sua formação que Taciano Brito em parceira com Silvio Guajajara se debruçam em “Tukán – A Semente Plantada”.
O documentário acompanha Silvio Guajajara, um cacique que, após receber um diagnóstico de câncer terminal, decide deixar um legado para sua aldeia: construir a primeira universidade indígena. Ao lado da sua esposa, Fabiana, eles buscam na terra e na alimentação orgânica a força para transformar um sonho coletivo em realidade.
Para essa abordagem, Brito traz praticamente um olhar etnográfico. Sem interferências diretas, ele acompanha de perto a rotina na aldeia, situando o expectador nas necessidades da comunidade e na importância da discussão do processo anticolonial nesses territórios. A escolha de mostrar, ao longo de cinco anos, o processo de estruturação de um centro de formação de saberes indígenas evidencia não apenas as lutas e as dificuldades de implementar um local de aprendizagem que se distancie do cânone educacional alicerçado sob o olhar imperialista, como também o significado de prosseguir avante com o propósito de manter a cultura e identidade de um coletivo.
É interessante como Brito consegue apresentar de forma sutil como até mesmo as culturas tradicionais precisam se adaptar ao sistema colonial, devido a sua hegemonia sociocultural e econômica. Nessa conjectura, “Tukán – a semente plantada” até se aproxima de ser um filme panfletário, mas o roteiro está mais preocupado em se centrar no olhar de Silvio e Fabiana e no cuidado em preservar o legado da aldeia sem ser algo forçoso aos membros mais jovens.
Quando o cacique indaga “o que é ser?” evidencia a preocupação com o futuro de um povo que abraça inconscientemente o sistema colonial e perde de vista suas próprias características. Nesse aspecto, a universidade indígena atesta não só o poder que a educação traz ao subjugado, como também o fato de que ensinar/aprender é o maior ato de transgressão e insubmissão social. Pensar um centro de formação apoiado em saberes tradicionais e que endossa as cosmogonia indígena não só é um ato simbólico de anticolonialismo, como também um passo importante na educação nacional, tendo em vista o atraso em séculos que existe entre os grandes centros urbanos nacionais e os territórios que estão às margens do Brasil.
“Tukán – a semente plantada” me gerou um sentimento muito próximo ao de quando assisti “A Felicidade das Pequenas Coisas“. Os dois projetos deixam claro que nem sempre você precisa ter os melhores instrumentos técnicos para ter a melhor educação do mundo, mas você sempre precisa de alguém que acredite que o solo é fértil e plante a semente. É isso que Silvio e Fabiana fazem e que torna o documentário também uma semente para a educação brasileira. Em ambos, vale a pena semear.













