A região amazônica tem suas peculiaridades e uma delas é o transporte: enquanto na maioria dos Estados é possível pegar uma estrada e se mandar para outro lugar, aqui dependemos do transporte aéreo ou, na maioria dos casos, dos rios. E dentro dos municípios, nem sempre o carro é o principal meio de transporte: motos e bicicletas são o método de preferência de muitas pessoas para os seus deslocamentos.
Daí vem boa parte da beleza de Bici: A História de uma Bicicleta no Afuá, curta-metragem paraense produzido pelo Iluminuras Estúdio e pela Embratur, com direção de Otoniel Oliveira. É uma animação que mostra a vida no interior focada no ponto de vista de uma bicicleta e é esse diferencial de enfoque que faz o filme.
A “Bici” em questão é de alta tecnologia, uma mountain bike que veio do Sudeste junto com sua proprietária. Em Afuá, no interior do Pará, ela sofre um acidente, é danificada e depois abandonada por sua dona. Mas esse não é o fim da sua jornada, pois ela vai ser reapropriada por pessoas locais e ganha novas funções, encontrando um sentido para sua vida.
Os pensamentos e sentimentos da Bici são narrados no filme pela voz doce de Tais Sawaki, e o filme tem um visual pintado à mão quadro a quadro, em aquarela. A animação em si não é tão refinada em algumas cenas – os movimentos dos personagens, especialmente no começo, são meio bruscos. Mas o trabalho com as cores é realmente bonito, chegando a captar perto do final do curta um tom de pôr-do-sol amazônico que traz muita beleza e poesia para a experiência. Também contribui a trilha sonora que consiste numa tocante música para violão feita pelo compositor Aron Miranda.
E por meio do ponto de vista da bicicleta, o filme trabalha com temáticas como utilidade, obsolescência e uso da tecnologia. Nada muito profundo, afinal é um curta que valoriza a simplicidade e a experiência emocional. Mas ainda assim, esses temas valorizam a obra, junto com seu ponto de vista incomum. E o fato de o filme trazer um artefato sudestino que recebe uma nova vida na região amazônica é um pequeno e interessante subtexto presente na narrativa, que adiciona ao tom de poesia e fábula da obra.
Depois do filme, uma rápida pesquisa revela que Afuá, na Ilha de Marajó, é conhecida como a cidade das bicicletas. Pela proximidade com o rio e por ser construída na maior parte sobre palafitas, o município proíbe a circulação de carros. Bici: A História de uma Bicicleta no Afuá capta essa sensação de estranhamento e um pedaço da vida amazônica com beleza e poesia. O filme possui um óbvio propósito turístico, claro, e faz falta um desfecho um pouco mais forte, mas no fim das contas nota-se que foi feito com criatividade e carinho. O curta consegue aliar seu objetivo com emoção e doçura genuínas, do tipo que ocasionalmente se encontra na vida amazônica.













