É certamente interessante ver uma pessoa que dedicou a vida inteira ao cinema reencontrando seu material de filmagem. E há guias menos carismáticos que Jorge Bodanzky. Seus olhos claros são afiados, mas nunca violentos. Sua voz é calma e convidativa, soando sobre acordes orientais e exóticos.

No entanto, essa trilha sonora genérica revela também um impulso contraditório dentro de “Um Olhar Inquieto”: se o documentário faz um bom trabalho ao apresentar a originalidade do cineasta, por outro lado, também se revela uma biografia das mais burocráticas.

O ponto de partida são imagens feitas por Bodanzky há mais de 50 anos, durante um sobrevoo pela Amazônia. Nesse registro, um grupo indígena ainda não contatado pelos brancos aparece em meio à selva, atirando flechas contra a aeronave do cineasta. O resgate dessas imagens revela um passado de exploração travestido de progresso científico, massacres e todo aquele roteiro que ainda prevalece hoje em dia.

O gancho é esse, mas “Um Olhar Inquieto” também precisa dividir seus 80 minutos com uma retrospectiva da carreira de Bodanzky. Os dois projetos acabam desbalanceados. A impressão é que poderíamos ter dois filmes distintos, melhor desenvolvidos.

Até porque Bodanzky fez por merecer uma autobiografia: da formação na Alemanha às reportagens pela América Latina até os dias como velejador. Fato é, no entanto, que a parte biográfica é a mais convencional, apesar de as imagens de arquivo de Bodanzky fazerem boa parte do trabalho pesado com bastante louvor. Talvez fosse mais interessante deixar as imagens correrem soltas por mais tempo, com maior liberdade. Como o próprio Bodanzky diz, elas falam por si mesmas.

Curioso também é o fato de que se dedique muito tempo a Karl Brugger, parceiro dos tempos de jornalismo, e pouquíssimo a Orlando Senna, co-diretor de Iracema — ou, aliás, a qualquer um dos co-diretores com quem Bodanzky trabalhou em sua carreira. Fato é que a questão da interrogação sobre as imagens da Amazônia fica de lado até ser retomada no terço final da obra, quando o filme codirigido pela amazonense Liliane Maia recupera certa força: as expressões dos Cinta-Larga, o povo que Bodanzky registrou inadvertidamente há 50 anos, assistindo às imagens de si mesmos depois de uma vida inteira de massacres, dizem muito.

Bodanzky entende que as imagens têm poder, e se Um Olhar Inquieto tem alguma força, ela está na própria obra do cineasta.