Já começa melancólico, com a belíssima “Tocando em Frente” cantada ao violão sobre a tela preta, enquanto os créditos iniciais vão passando.

E isso é antes que um ônibus despenque de um elevado na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, matando a maior parte dos passageiros e o motorista, filho de Vicentina (Rejane Faria).

O que aconteceu? Foi um acidente? Um atentado contra a própria vida? Chegamos a ver o sujeito, Wesley, brevemente, conduzindo o ônibus. Tudo parece normal.

Um filme menor talvez fizesse do mistério sua razão de ser. Não que “Vicentina Pede Desculpas” não se interesse pelo que houve, mas o novo longa de Gabriel Martins está mais preocupado nas consequências — em como podemos extrair sentido do que talvez não faça nenhum.

Daí o cuidado com que sua câmera estuda os rostos dos parentes das vítimas, a quem Vicentina visita, um por um. Por que ela faz isso? Uma espécie de ritual autoflagelante, mas também uma busca por sentido: teria deixado passar algum sinal? Teria falhado enquanto mãe?

Novamente, um filme menor talvez apelasse para o drama fácil, com Vicentina sendo hostilizada pelas famílias, gritaria e tudo o mais. Não é o que acontece, salvo uma exceção crucial e bem conduzida. As pessoas sofrem, reagem, mas também são humanas. Ela perdeu o filho, afinal.

Gabriel Martins demonstra, portanto, total controle dramático, domínio absoluto da condução da sua história. Tudo está no lugar, todos estão perfeitamente bem, o que inclui Rejane Faria, no centro de todas as cenas.

E, no entanto… falta algo. Comedido demais, talvez? Fato é que, uma vez entendido o que o filme está fazendo, não há mais nada a fazer a não ser acompanhar o filme fazer o que faz. E faz bem.

Mas chegamos ao final desejosos de algo mais, alguma catarse, mesmo que silenciosa. Nada. Talvez seja obra que precise maturar, ficar um tempo na cabeça, crescer com o tempo…

Talvez. Mas “Vicentina Pede Desculpas” podia — e devia, dado o talento dos envolvidos — mais. Fica a ingrata pergunta, aquela que ninguém quer fazer ao final de um filme, ainda mais um filme competente como este: “Tá, mas e daí?”.