“Urchin” pode ser traduzido para o português como moleque ou pivete de rua. É um título apropriado para o filme de estreia do jovem ator Harris Dickinson na direção. Revelado por suas atuações em O Triângulo da Tristeza (2022) e Babygirl (2024), Dickinson faz um filme curioso sobre um moleque de rua, mas um de 30 anos de idade.
Interpretado por Frank Dillane, o protagonista de Urchin é Mike, um rapaz que vive nas ruas de Londres, e já há um bom tempo. Logo nos primeiros minutos do filme, o vemos agredindo um homem, um daqueles pastores de rua cujo único pecado foi tentar ajudar o rapaz sem-teto. É um arroubo súbito de violência em uma cena que chega a ser chocante.
Depois, Mike é preso e sentenciado a cumprir serviços comunitários. Ele também é “condenado” a arrumar um emprego. Mas será que esse sujeito vai conseguir se emendar?
O filme não se propõe a ser um estudo de personagem: ao longo da história, não descobrimos muito sobre o passado de Mike, nem recebemos muitas explicações sobre porque ele é do jeito que é. Não há jornada do herói aqui, nem grandes mudanças. A câmera segue o protagonista e registra tudo de forma bem naturalista – algumas pessoas com as quais Mike interage ao longo da trama claramente não são atores profissionais. E Dickinson e seu diretor de fotografia Josée Deshaies conduzem tudo com uma abordagem bem livre, dando espaço para os atores dentro dos planos, quase sempre com foco amplo, e às vezes filmando à distância.
Porém, esse aspecto quase documental de Urchin contrasta com algumas “viagens” estilizadas do diretor: há um momento em que a câmera mergulha dentro do ralo de uma pia, em outro vemos uma longa cena de dança, e há também instantes que parecem mergulhos na consciência do protagonista. Isso promove uns momentos de quebra na narrativa, de mudanças súbitas, e essas transições não são inteiramente bem resolvidas, parecendo apenas uns floreios meio arbitrários.
Mas no centro de tudo temos uma ótima atuação de Frank Dillane, que quando criança apareceu em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009) e ultimamente estava participando da série Fear the Walking Dead. O que ele faz aqui é digno de nota, mantendo a nossa simpatia por uma figura que às vezes parece beirar quase a psicopatia. Quando pensamos que Mike vai tomar jeito, o personagem escapa por uma tangente. É difícil despertar empatia por uma figura tão errática, mas o ator, em conjunto com a direção, consegue esse feito. É essa ambivalência, nossa atração e repulsa pelo protagonista, que dá ao filme sua força.
Urchin é um filme que aponta um início da carreira promissor para seu diretor, que ainda aparece no filme no papel de um amigo de Mike. Não é melodrama, mas não é documentário também; e nos faz pensar sobre pessoas em situação de rua, mas não faz força para buscar nossa simpatia. No fim das contas, é um filme como o seu personagem principal: errático, às vezes estranho, mas sempre interessante.












