Talvez seja fácil esquecer, passados mais de 30 anos desde sua entrada em cena, o quão pervasiva foi a influência de Quentin Tarantino nos cinemas independentes. Mas volte um pouco no tempo e você perceberá que o diretor é responsável por muito do que de mais exasperante foi feito na virada do milênio.
No México, suas digitais podem ser encontradas nas tramas interconectadas que catapultaram Alejandro González Iñárritu à fama. No Reino Unido, Guy Ritchie incorporou as tramas de crime e o humor mórbido de “Pulp Fiction” e “Cães de Aluguel” em seu próprio cinema hipercinético.
E há, claro, as cópias surgidas nos EUA. Desses cineastas, alguns estavam diretamente vinculados a Tarantino — como seu comparsa Roger Avary, co-autor de “Pulp Fiction” e diretor do pavoroso “Parceiros de Crime”. Outros eram apenas realizadores emergentes que tinham Tarantino como herói.
Doug Liman, responsável por “Sr. e Sra. Smith”, “No Limite do Amanhã” e “A Identidade Bourne”, era um deles. Antes de ser uma mão confiável, mas burocrática, a serviço dos grandes estúdios, Liman era um pobre coitado tentando se firmar em Hollywood. Certo, talvez não tão pobre assim: graças aos contatos do pai, Liman foi capaz de assegurar o orçamento de US$250 mil dólares para a produção de “Swingers: Curtindo a Vida”, escrito e estrelado por Jon Favreau. Mas a bufunfa veio com uma condição: Liman seria o diretor do projeto ou nada feito.
“Swingers”, cujo grande êxito parece inexplicável ao olhar contemporâneo, já apontava para o que encontraríamos em “Vamos Nessa”, seu filme seguinte: diálogos espertinhos, personagens desagradáveis e uma obsessão nada saudável com Tarantino, com direito a uma paródia da abertura de “Cães de Aluguel”. “Vamos Nessa”, então, nada mais é do que uma incursão completa pela Tarantinolândia.
E é um passeio desagradável do jeito que só os filmes dos anos 1990 sabem ser. Para além do blá-blá-blá incessante dos personagens, você ainda tem a estética MTV já totalmente assimilada pelo cinema, com cortes frenéticos e ângulos de câmera esquisitinhos. Sem falar na trilha sonora sempre terrível, oscilando entre o rock seboso e o eletrônico embolorado.
“Vamos Nessa” é um tríptico de histórias que eventualmente se cruzam. A primeira envolve Ronna (Sarah Polley), caixa de supermercado desesperada por grana que decide passar a perna em um traficante sinistro (Timothy Olyphant). A segunda mostra um colega de trabalho, Simon (Desmond Askew), em uma noitada em Vegas. Encerrando a trama, há também a história de um casal de atores que se mete em uma operação policial.
Aqui, como em “Swingers”, toda a pretensa energia juvenil é traída pelos tropiques de Liman; há sempre algo meio off no seu ritmo. Exemplo: um personagem está conversando, dá um passo à frente e é subitamente atropelado por um carro que entra no frame à toda. Já vimos essa cena mil vezes, mas aqui ela não é nem engraçada, nem surpreendente, nem chocante. Ela apenas acontece.
Se Liman parece sem ritmo, o roteiro em suas mãos não ajuda muito. John August, cujos créditos viriam a incluir “As Panteras” e o já esquecido remake de “Aladdin”, tece uma trama cheia de arquétipos irritantes: o branquelo que acha que é preto, o garanhão que é adepto do sexo tântrico, os atores vaidosos e vis. Sendo este um exemplar dos anos 1990, você pode apostar que somos obrigados a ouvir o falatório inesgotável dessa constelação enfadonha de perdedores.
Se há algo de interesse aqui, é o quem-é-quem de um então anônimo elenco: não só a oscarizada Polley e o bonachão Olyphant, mas também Katie Holmes e uma estreante Melissa McCarthy são alguns dos rostos reconhecíveis. Polley, profissional em fazer cara azeda, é quem se sai melhor. Sua Ronna, apesar de tomar todas as decisões erradas, é a única com quem conseguimos nos identificar. É porque só ela parece perceber o quão irritante é o mundo em que está inserida.
Isso porque “Vamos Nessa” é o tipo de filme que não mede esforços para parecer ousado. Lá pelas tantas, uma criança entra no quarto de hotel onde Simon e sua corja estão hospedados e pergunta o que fazem ali. Simon responde sardonicamente: estuprando criancinhas. O que deveria ser provocador soa mais como desesperado.
É como aquele cara na festa que enche a boca para falar as coisas mais “chocantes” possíveis, só pela reação alheia. Só que a festa é uma rave abarrotada, todos se vestem mal e estão chapados de ecstasy. Datado é pouco.















