Marlon Brando (1924 – 2004) foi considerado um dos melhores atores de todos os tempos. Além de ser uma figura renomada do cinema, foi também um grande ativista de causas sociais, utilizando sua fama e influência para dar visibilidade a problemas estruturais da indústria, como a problemática representação de nativos americanos em Hollywood. 

Outro ponto pouco conhecido de sua trajetória foi sua preocupação ecológica. Cansado da vida em Los Angeles, no auge da fama, Brando se mudou para Tetiaroa, na Polinésia Francesa, onde comprou uma ilha e tinha o sonho de criar um refúgio ecológico sustentável, já que o lugar não tinha água potável nem infraestrutura. Foi quando contou com o auxílio de Bernard Judge, um talentoso arquiteto que decidiu embarcar com ele nesse projeto. Não só isso: Brando levou Judge a se tornar um apreciador da vida longe das cidades grandes, o que fez os dois se tornarem grandes amigos. O filme se baseia nas memórias de Judge com Brando, registradas na obra “Waltzing with Brando: Planning a Paradise in Tahiti”.

Sendo assim, o longa tem uma atmosfera bastante serena e agradável, com muito bom humor — seja na dinâmica entre Judge e sua família, seja na curiosa relação que ele desenvolve com Marlon Brando. O cenário paradisíaco, com a fotografia sempre iluminada de Garrett O´Brien, o senso de companheirismo entre os dois protagonistas e a trilha sonora divertida e suave de Matei Bratescot embalam essa aventura como uma grande jornada family-friendly, o que é curioso para uma história sobre um ator que encarnou criminosos e papéis muito intensos no cinema. 

Isso nos leva ao surpreendente trabalho de Billy Zane, intérprete de Marlon Brando, numa atuação impecável que, juntamente com a maquiagem prostética de Cici Andersen, parece encarnar o falecido ator como se, de fato, o próprio estivesse presente ali — sendo esta a melhor qualidade do longa. Zane reproduz com maestria os trejeitos, as expressões e o jeito de falar do icônico ator. Seu parceiro de cena, Jon Heder, no papel de Bernard Judge, está bem e tem uma boa química com Zane. O contraste entre o estilo de vida livre e despojado de Brando e o estilo mais urbano de Judge é cativante e é a grande alma da narrativa.

É uma pena, porém, que o desenvolvimento de Judge na trama seja tão fácil e esquemático, sem grandes conflitos. A absorção dele do comportamento de Brando ocorre sem dificuldades. Até mesmo a vulnerabilidade de Judge ao quase trair a esposa com uma moradora da ilha é rapidamente resolvida, sem grandes nuances.

O mesmo se pode dizer dos empreendimentos de Brando e Judge, que não encontram muitas resistências para serem realizados. Tudo acontece de forma milagrosa e explicado ao espectador de modo didático, realmente parecendo mais uma apresentação de PowerPoint dos passos do projeto de engenharia — e muito menos algo que impulsione a narrativa de alguma forma.

Igualmente fraca é a representação temática de Brando que, se por um lado inspira ao ressaltar a nobreza das causas abraçadas pelo ator e seu comportamento recatado diante da imprensa, por outro se esquiva de tocar nas partes mais problemáticas de sua trajetória, tornando a obra uma peça bem “chapa-branca” nesse sentido. Isso pode se dever ao fato de o filme ser baseado em uma versão romantizada e nostálgica de Brando, apoiada nas memórias de Judge pelas experiências que teve com o amigo.

Dessa forma, ao passear de relance pelos papéis marcantes que o ator interpretou naquela fase de sua carreira, entre 1969 e 1974 — tais como o emblemático Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão e Paul no controverso O Último Tango em Paris — o filme faz isso meramente como um recorte representativo do talento do ator.

Sobre este último, em especial, é inevitável não sentir indignação pela abordagem adotada, já que o trabalho de Brando é retratado de forma igualmente memorial, como se os responsáveis por Waltzing with Brando não estivessem a par do revisionismo pelo qual O Último Tango em Paris passou nos últimos anos. Com certeza, isso marca a maior mancha na carreira do ator: ter conspirado, de forma covarde, com o diretor Bernardo Bertolucci para um abuso sexual real contra sua colega de elenco, Maria Schneider, para garantir o realismo da infame “cena da manteiga” — episódio que voltou ao debate jornalístico na ascensão da era Me Too e que revela um lado sombrio de Brando.

Nesse sentido, o comportamento errático do ator no filme se reduz meramente a uma cena em que ele chora diante da esposa de Judge, lamentando uma falsa morte de sua própria esposa apenas para se certificar de que sua atuação está boa — momento que não traz consequências sérias para o personagem.

Por outro lado, há o singular momento em que Brando se recusa a receber seu Oscar de Melhor Ator por O Poderoso Chefão, como protesto pela forma como Hollywood costumava retratar nativos americanos em suas produções, enviando para a cerimônia, em seu lugar, Sacheen Littlefeather — representante da comunidade, atriz, modelo e ativista dos direitos civis dos nativos americanos — para fazer um discurso em seu nome. Isto posto, o longa parece interessado em ressaltar apenas o lado positivo do ator.

Tudo isso, aliado à modéstia da produção — que visivelmente parece ser de muito baixo orçamento — faz com que o filme enfrente dificuldades, como retratar de forma convincente o acidente sofrido por Judge no mar, com efeitos práticos rasos que são disfarçados pela edição de Michael Yanovich. Essas escolhas impedem que o longa se torne uma obra que será lembrada no dia seguinte.

Em suma, Waltzing with Brando funciona como um bom diário de viagem de Bernard Judge e um testamento de sua doce e forte amizade com Marlon.