Parte da identidade do Olhar de cinema, as sessões de curta-metragens frequentemente são marcadas por uma junção temática dos filmes. Em vez do balaio de filmes separados em “brasileiros” e “estrangeiros” ou “ficção” ou “documentário”; é sempre interessante perceber que o próprio festival propõe um paralelo entre seus filmes. Tematica ou formalmente ou as duas coisas
Na única sessão que acompanhei da 13ª edição. Maternidade. Paternidade. Questões reprodutivas de forma geral. São o fundamento dos filmes exibidos.
Contrações, Lynne Sachs, 2024
O que há de mais tocante aqui é o relato. Os relatos. De funcionários do Planned Parenthood. Companhia que oferece o aborto para quem precisa, nos Estados Unidos. Mas que foi desativada em diversos estados quando a legislação frágil e atrelada a uma jurisprudência foi desfeita em 2022.
Como um efeito dominó. Milhões de mulheres perderam a ingerência de seus próprios corpos. Deixaram de poder decidir os próprios futuros. O que afetou a todas elas mas também às funcionárias e funcionários que se arriscaram para prestar esse serviço essencial e deixado de lado.
Contrações é muito simples na sua ideia de como lidar com isso. O relato somado à imagem de um certo vazio. Ilustrado pelas enfermeiras e enfermeiros sempre vistos de costas. Sem rosto ou identidade. Que se tornam, nesse processo, seus uniformes. Circulando por esse estacionamento vazio de um prédio térreo fechado e já descaracterizado. Sem sinal do que era. Sem sinal de como ele já foi o espaço de alívio de tanta gente.
As pessoas aqui. Com seus aventais e parafernália brancos e descartáveis. Se tornam fantasmas. Assombrações de um tempo melhor. De um tempo um pouco mais civilizado. Mas que agora não são mais que ecos.
Capturar o fantasma, Davi Mello, 2024
A aproximação e desaproximação lenta do zoom de Davi Mello talvez seja o mais evocativo em um filme aqui que não se apresenta e nem quer se apresentar claramente em relação a qualquer narrativa. Sendo em vez disso um empilhamento de personagens se expressando de formas diversas frontalmente para a câmera sempre estática. Quase sempre estática. Uma mulher que fala sobre um fantasma que só aparece para as mulheres da sua família em um vídeo. Uma outra que lê um cartão postal. Um homem que depõe sobre um trauma extremo que se concretizou em um sonho.
Com mensagens e expressões articuladas nesses formatos diversos mas conectadas com uma angústia que traz mais perguntas que respostas. Que tipo de fantasma só assombra mulheres? O que a temporalidade deslocada do capítulo do cartão postal quer dizer? Com uma fantasmagoria ecoada nos atos banais e na abertura do quadro da mulher que pendura roupa no varal, entra em casa e lê a carta. O trauma do nascer que permeia o filme nas cenas de útero mas que se concretiza na exposição dramática de um homem perturbado.
Subtextualmente concretizando um filme sobre o espectro da domesticidade que se expressa muito nos lugares. Em um canto de casa desesperada. Em uma cozinha. Em uma janela que dá pra um quintal murado.
Sonhos como barcos de papel, Samuel Frantz Suffren, 2024
Eco dos outros no tema de paternidade mas também na fantasmagoria da encenação, Sonhos como barcos de papel é contado pelo dia a dia de pai e filha mas é marcado pela ausência da mãe. Que aparece como visão, como lembrança, como trauma principalmente. Em um filme que é meio pautado por traumas que nunca são acessados frontalmente. A gente sabe que algo ocorreu. Que esse algo marcou. Que o passado tem esse aspecto agridoce. Da nostalgia melancólica. Mas a gente nunca sabe o que aconteceu exatamente.
O protagonista enxerga a esposa pela memória, pela foto. Ouve pela fita gravada. Se conecta por uma distância.
Em um filme que se expressa analogicamente pelo toca fitas e pela TV de tubo. Tudo aplainado pelo preto e branco dessa fotografia. O que pode até ser lido – pensando nele como um filme do Haiti – como articulação dos traumas nacionais coletivos e sucessivos pós-terremoto e ruína sociopolítica do país. E em como a filha é de algum jeito símbolo de um futuro possível.
Rinha, Rita M. Pestana, 2024
A revelação na sessão de que o filme Rinha foi gravado há cinco anos, em 2019, faz sentido quando se pensa no quanto ele captura de mal estar generalizado na história dessa personagem. O ano da normalidade pré-pandemia, mas também o ano um de Bolsonaro. Crise social e política. Ilusão. Que se manifesta na escuridão e na depressão que se concretiza nessa personagem e ao redor dela.
Não que o filme conscientemente se refira a isso. Mas ele captura um sentimento que é um eco de um estado social.
Na trama, Cássia é obrigada a seguir os passos do pai. Cuidando de seus galos de briga e dirigindo seu táxi. Circulando pelos seus ambientes. Perto dele e ao mesmo tempo muito longe. Como se estivesse perseguindo alguém que sempre está quase ao alcance dos dedos. Como se fosse esticar o braço e quase alcançar. Mas nunca tocando realmente. Em uma espiral melancólica. Em um estado de quem não aguenta mais. Que se expressa até, no fim, em uma mensagem sobre isso. Um desabafo.
Mas que se articula com mais força mesmo é na atuação de Sinara Teles. Internalizada. Eloquente no seu silêncio e no jeito que parece sempre simular uma simpatia para o mundo. Dos passageiros aos colegas que nem são dela no ponto de táxi. Tentando esconder um cansaço incurável.
E que Rita Pestana captura pela proximidade dela. Dos planos próximos do pescoço enrijecido das horas longas e duras no banco do motorista. Do olhar para fora da janela. Assistindo aquela solidão metropolitana de Belo Horizonte e que é eco ali da solidão metropolitana de qualquer grande cidade brasileira.
Como numa falta de rumo de um país que não tinha perspectiva de para onde ir.
Caindo, Anna Gyimesi, 2024
Uma colagem de imagens deterioradas de uma infância. Uma vida deteriorada pela depressão crônica de uma criança que agora, adulta e responsável por si, busca na eutanásia um fim para um sofrimento psicológico que parecia estar sempre ali. No filme de Anna Gyimesi, a voz de uma mãe tenta narrar e expressar e falar sobre algo que parece inconcebível.
Se a morte de um filho já parece antinatural, quem dirá o planejamento institucionalizado desta morte. O fim de uma vida que mal é uma vida. Uma existência perturbada. Que luta para ser desfeita.
Mesmo como curta, entretanto, o filme que não chega a vinte minutos não parece lidar com algo que vá muito além dessa premissa. Que nos pega logo de cara. Com menos de um minuto. Essa dor é difícil de lidar. Esse sentimento de horror completo da perspectiva da mãe.
Assistir a isso é como olhar algo que a gente não quer. Como lidar com um tema incompreensível. Difícil. Em muitos sentidos. O que pode resultar em um distanciamento autoimposto do espectador. Causando essa interferência no filme mas ao mesmo tempo concretizando paradoxalmente o que talvez ele queira o tempo todo.













