Mais do que adaptar a peça de Cesc Gay para o cinema, Olivia Wilde queria transformar O Convite em uma experiência viva. Para isso, apostou em um processo incomum de ensaios, improvisações e filmagens em ordem cronológica, permitindo que o filme evoluísse junto com o elenco.
Em coletiva de imprensa mundial com a presença do Cine Set, a diretora revela como a consultora Esther Perel influenciou sua visão sobre relacionamentos de longa duração, explica por que dedicou o longa a Diane Keaton e conta como Seth Rogen se tornou a escolha definitiva para protagonizar a história.
Wilde também detalha a liberdade criativa dada aos atores, elogia a construção da personagem de Penélope Cruz e explica como buscou equilibrar a linguagem teatral da obra original com uma abordagem cinematográfica inspirada em diretores como Mike Nichols, Robert Altman e Sidney Lumet.
Pergunta – Como foi seu primeiro contato com a adaptação? Você chegou a assistir ao filme original ou já conhecia o trabalho do diretor Cesc Gay?
Olivia Wilde – A primeira coisa que fiz foi assistir ao filme original antes mesmo de ler o roteiro. Queria entender a origem daquela história. Também soube que ela já havia sido adaptada para vários países, e isso despertou minha curiosidade. Pensei: “O que essa trama tem de tão universal para funcionar em culturas tão diferentes?“. Era evidente que havia algo muito autêntico em seu núcleo.
Adorei o filme espanhol, baseado na peça de Cesc Gay. Passei boa parte da sessão rindo e percebi como aquela premissa simples oferecia inúmeras possibilidades de adaptação. Depois li o roteiro escrito por Rashida Jones e Will McCormack e tive a certeza de que havia um projeto muito especial ali.
O que mais me atraiu foi a possibilidade de construir o filme de forma colaborativa. Sempre sonhei em trabalhar em um processo semelhante ao de Sidney Lumet em 12 Homens e uma Sentença ou ao de Mike Nichols: ensaiar bastante, desenvolver o material junto ao elenco, filmar em ordem cronológica e abrir espaço para improvisações.
Por isso, o roteiro mudou muito desde a primeira versão que li até o início das filmagens. E continuou evoluindo durante a produção, graças às contribuições e às interpretações tão específicas do elenco.
Pergunta – De que modo fazer O Convite mudou sua própria visão sobre o amor e os relacionamentos de longa duração?
Olivia Wilde – Durante o desenvolvimento do filme, trabalhamos muito essa ideia com a consultora Esther Perel: a de que um relacionamento pode abrigar vários relacionamentos ao longo do tempo. Talvez toda relação tenha um fim em determinado momento, mas isso não significa que você não possa começar uma nova fase com a mesma pessoa.
Conheci esse conceito anos atrás, em uma palestra da Esther, e ele mudou completamente a minha forma de enxergar os relacionamentos. Desde então, quis levá-lo para O Convite. Passar tanto tempo refletindo sobre essa ideia durante a produção me tornou muito menos cética em relação ao casamento e aos relacionamentos duradouros. Gosto da noção de que as pessoas podem se reinventar, tanto individualmente quanto como casal.
Durante a montagem, inclusive, inseri uma citação de Oscar Wilde para ajudar a contextualizar essa proposta, como faziam alguns cineastas e escritores que admiro. Minha esperança é que, ao final do filme, o público olhe para aquela frase de outra maneira e perceba que, se o amor exige constante reinvenção, talvez o casamento não seja tão pouco romântico quanto parece.
Curiosamente, foi acompanhando as reações do público que me tornei ainda menos cética. Muitas pessoas me disseram que, depois de assistir ao filme, sentiram vontade de voltar ao cinema acompanhadas de seus parceiros. Acho bonito pensar que O Convite possa incentivar conversas sobre relacionamentos e, quem sabe, até ajudar alguns casais a reencontrarem um caminho. Isso me emocionou bastante.
Pergunta – Como você conseguiu confiar tanto no próprio instinto durante as filmagens, ouvindo o elenco e a equipe, sem acabar escolhendo o caminho mais seguro ou simplesmente seguir o plano original?
Olivia Wilde – Foi a primeira vez que senti que estava trabalhando em um filme realmente vivo, que mudava e evoluía durante o processo. Como filmamos em ordem cronológica, era possível perceber de maneira muito intuitiva quando uma cena funcionava, quando o ritmo precisava ser ajustado ou quando era necessário conduzir o público para uma energia diferente.
Era quase como montar o filme enquanto ainda estávamos filmando. Você consegue sentir quando precisa aumentar ou diminuir a intensidade da narrativa.
Mas isso só foi possível porque havia uma preparação muito sólida. Eu tinha uma visão muito clara do estilo que queria para o filme. Não queria que ele parecesse improvisado ou sem direção. Embora tenha buscado inspiração em obras como Maridos e Esposas, havia um conjunto de regras muito bem definido entre mim, o diretor de fotografia e a direção de arte.
Essa preparação deu ao elenco total liberdade para experimentar, enquanto eu podia tomar decisões de forma intuitiva. Foi a primeira vez que compreendi plenamente que essas duas coisas não são opostas. Pelo contrário: quanto maior a preparação, maior pode ser a liberdade criativa. Fico feliz que isso tenha ficado perceptível no filme, porque era exatamente essa a sensação que tínhamos durante as filmagens.
Pergunta – O filme parece caminhar o tempo todo na fronteira entre o teatro e o cinema. Como você encontrou esse equilíbrio na direção dos atores, na movimentação da câmera e na encenação?
Olivia Wilde – Sempre que você adapta uma peça para o cinema, precisa responder a uma pergunta fundamental: por que essa história precisa virar um filme? O Cesc Gay adaptou a própria peça para o cinema, e ainda é possível perceber a estrutura teatral ali. Quando começamos nossa versão, quisemos entender o que o cinema poderia acrescentar àquela história.
Para mim, a resposta estava na conexão emocional que a câmera é capaz de criar com os personagens. A linguagem visual precisava acompanhar a experiência emocional do público, aproximando-o deles de uma forma que só o cinema consegue fazer.
Uma das minhas principais referências foi Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols. À medida que os personagens ficam mais bêbados e emocionalmente expostos, a própria câmera parece acompanhar esse estado. Ela se aproxima, muda de comportamento e passa a refletir a intensidade daquelas emoções.
Também queríamos registrar comportamentos que jamais poderiam estar escritos no roteiro, reagindo ao que os atores criavam durante as cenas. Um exemplo é a chegada de Pina ao apartamento. Enquanto os demais personagens são apresentados com enquadramentos estáticos, ela entra acompanhada por uma câmera em movimento, porque sua energia dentro daquele espaço é completamente diferente.
Ao longo do filme, a câmera também se aproxima cada vez mais de todos os personagens. Buscamos um equilíbrio entre improvisação e precisão. Nada era aleatório: havia muito planejamento, mas queríamos que os diálogos tivessem a naturalidade dos filmes de Robert Altman, com falas que se sobrepõem, improvisações e um ritmo quase musical, sem que a narrativa perdesse o foco ou parecesse excessivamente ensaiada.
Pergunta – Você pode falar um pouco sobre a importância de Diane Keaton para a sua trajetória e para este filme?
Olivia Wilde – O filme é dedicado à Diane porque sinto que ninguém teria se conectado mais com essa história do que ela. Eu estava muito animada para mostrar o resultado a ela.
Tive a oportunidade de trabalhar com Diane anos atrás, interpretando sua filha em um filme que pouca gente viu, mas foi uma experiência que jamais trocaria por outra. Passei um inverno inteiro ao lado dela e aprendi muito. Além de atriz, ela também era diretora e sempre me incentivou a ser ousada na direção.
Como intérprete, Diane redefiniu o tipo de personagem feminina que eu queria ver no cinema. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa foi um divisor de águas para mim. Cresci admirando Lucille Ball, mas Diane levou esse arquétipo a outro nível: criou mulheres vulneráveis, intuitivas e cheias de empatia, sem abrir mão da inteligência e da complexidade. Durante muito tempo, personagens com essas características eram tratadas como menos inteligentes. A Annie mudou isso completamente.
A Angela não existiria sem a influência de Diane, e acho que este filme também não. Muitos dos longas que nos inspiraram têm a presença dela, e essa combinação entre inteligência e sensibilidade era exatamente o que buscávamos.
Lembro que ela uma vez me disse para sempre “usar o coração na manga”. Este é o trabalho mais pessoal e vulnerável que já fiz, e pensei nela durante todo o processo. Eu ainda estava montando o filme quando recebi a notícia de sua morte. Naquele instante, tive certeza de que este filme precisava ser dedicado a ela.
Pergunta – Quando vocês trabalharam juntos em O Estúdio, você já sabia que Seth Rogen faria parte de O Convite? Como surgiu essa ideia?
Olivia Wilde – Na verdade, foi durante as filmagens de O Estúdio que percebi que o Seth precisava interpretar o Joe. Foi aquele típico momento de estalo. De repente, o filme passou a fazer sentido para mim.
O Joe exigia um ator capaz de transmitir muitas camadas ao mesmo tempo. Você precisava gostar dele, reconhecer suas fragilidades, sentir empatia, mas também se frustrar com suas atitudes. O Seth tem uma habilidade extraordinária para criar essa conexão com o público. Ele sabe exatamente quando um momento precisa de humor e quando não precisa.
Naquela época, eu nem imaginava que também faria parte do elenco. Só tinha certeza de que precisava convencer o Seth a aceitar o papel.
Outra mudança importante foi a forma como enxerguei a história. O roteiro original de Rashida Jones e Will McCormack começava pela Angela, mas senti que o filme precisava partir do Joe. A crise da meia-idade, a apatia e o estado emocional dele eram o melhor ponto de entrada para a narrativa. Queria que o público mergulhasse primeiro na mente desse personagem.
Quando percebi que o Joe tinha que ser interpretado pelo Seth, todo o resto se encaixou. Acho que este é o melhor trabalho da carreira dele. Costumo brincar que ele está vivendo sua “fase Albert Brooks”, e isso é um grande elogio. O único desafio foi convencê-lo a participar, porque ele é uma das pessoas mais ocupadas de Hollywood.
Pergunta – Penélope Cruz surpreende ao mostrar um lado cômico que nem sempre aparece em seus trabalhos. Como foi construir essa personagem ao lado dela?
Olivia Wilde – Sempre achei a Penélope uma atriz extraordinária, tanto no drama quanto na comédia. Ela transmite força, complexidade e sabedoria, mas também tem um talento enorme para o humor. Acho que, nos filmes americanos, muitas vezes ela é escalada apenas como uma figura de admiração, enquanto foi no cinema espanhol, especialmente com Pedro Almodóvar, que pôde explorar plenamente seu lado cômico. Outro ótimo exemplo é Competencia Oficial, em que interpreta uma diretora de cinema de maneira brilhante.
O mais interessante foi que ela nunca quis fazer da Pina uma mulher perfeita, sedutora e misteriosa. Desde o início, buscou justamente aquilo que tornava a personagem mais humana: a intensidade, os momentos de constrangimento, o humor, a raiva e até a explosão emocional no fim do filme.
Durante os ensaios, foi acrescentando novas camadas à personagem, inspirando-se parcialmente em Esther Perel, mas também em pessoas que conhece. Curiosamente, a Penélope não tem nada a ver com a Pina, e talvez seja exatamente por isso que sua interpretação seja tão impressionante.
Ela também sugeriu mudanças importantes, como usar uma peruca loira para se distanciar fisicamente de si mesma. Assim que colocou a peruca, parecia outra pessoa. Foi uma transformação completa.
Também adorei a liberdade que ela teve para improvisar. Muitas das cenas mais marcantes nasceram das ideias dela, como os diálogos em espanhol, a sequência da sedução com o personagem de Seth Rogen, a dança ao som de Sade, a conversa enquanto fumam um baseado, a briga no final e até o monólogo sobre a perimenopausa.
Na verdade, isso vale para todo o elenco. Cada ator contribuiu de forma muito autoral para construir seu personagem. Foi um processo extremamente colaborativo, diferente de tudo o que já vivi. A presença criativa da Penélope está em todo o filme, e hoje sou ainda mais admiradora do trabalho dela do que já era antes.


















