O diretor japonês Takeru Okazi chegou ao Espaço Augusta de Cinema empolgado não apenas com a reação do público a “Conduzindo Seus Pássaros”, filme que apresentou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas também com uma nova aquisição: uma jaqueta do Corinthians, time de futebol que escolheu para torcer ao chegar no Brasil. 

“Sou muito fã de futebol e já conhecia algumas equipes do Brasil, mas não tinha escolhido ainda uma para torcer antes de chegar aqui. Me falaram que eu tinha que torcer pelo Corinthians, e então comprei a jaqueta. Vou usar no Japão e chamar mais gente para torcer também”, conta.

Papo de futebol à parte, o que levou Okazi a São Paulo foi um filme delicado e silencioso que conta a história de um produtor musical em crise criativa. Ao se abrir para os sons da natureza e barulhos que o incomodam, como o ronco da irmã, ele descobre novas inspirações para criar novamente. 

O realizador conta que o projeto nasceu por uma vontade de desenvolver algo com linguagem de sinais. O ator principal, Satoshi Inagawa, é um CODA – ou seja, é filho de uma pessoa surda -, e a atriz Shiho Tanaka tinha vontade de aprender a se comunicar com as mãos. 

“Eu também sou surdo de um dos ouvidos, então sinto uma conexão com a linguagem de sinais. Pensei em como fazer uma ligação entre isso e a música. O personagem principal, Seita, é de Tóquio e se muda para o interior. Quando o filme começa, ele se comunica em diálogos meio aleatórios. Assim que ele começa a usar as duas linguagens, ele sente que os sinais são mais reais para ele”, resume.

No filme, o espectador vive todo o bloqueio criativo de Seita. A música surge apenas quando ele está criando. Nos intervalos, a plateia descobre junto com o personagem todos os barulhos e também aprecia o silêncio que vai do constrangedor ao confortável. 

“O som, no filme, é como uma parede. A irmã do personagem quebra a parede, e isso faz com que ele queira corrigir essa quebra. O mesmo acontece quando ele ouve os sons dos pássaros”, conta o diretor, que usou praticamente apenas sons captados durante as filmagens. “Nós corrigimos muita coisa, mas não compramos nenhum som. Tudo é puramente nosso”, acrescenta.

“Conduzindo Seus Pássaros” nasceu também de um conjunto de influências do diretor, que vão de Jim Jarmusch (‘um mestre’, diz) a Yasujiro Ozu e Hong Sang-Soo.

“No final do filme, temos três pessoas em cena, e isso talvez seja influência de ‘Estranhos no Paraíso’ (de Jarmusch). Eu também sou muito influenciado pelos filmes do Ozu. Eles têm uma identidade própria. A personalidade dele está nos filmes dele e isso me dá coragem de me expressar nos meus. [Com Sang-Soo] eu aprendi a usar o tempo”, afirma Okazi, acrescentando, ainda, o naturalismo de Abbas Kiarostami em filmes como “Onde Está a Casa do Meu Amigo?”.