Caio Pimenta aponta os favoritos e quem pode ser indicado nas categorias de Roteiro Adaptado e Original no Oscar 2025.

VAGAS GARANTIDAS – ROTEIRO ORIGINAL 

As categorias sempre conseguem dar visibilidade para produções que não conseguem tanto especial nos prêmios principais. Roteiro Original, por exemplo, consagrou “Meia-Noite em Paris”, “Ela”, “Corra“, “Bela Vingança” e “Anatomia de uma Queda” nos últimos anos. 

Para o Oscar 2025, entretanto, tudo indica que ele pode ser um prelúdio do embate de Melhor Filme. 

Afinal, “O Brutalista” e “Anora” estarão frente a frente. O Brady Corbet e Mona Fastvold se beneficiam por trabalharem em um estilo mais clássico de narrativa, uma história épica de 3h30 com bastante tempo para desenvolver toda a ambiciosa trama, os personagens e o universo ao redor deles.   

A comédia romântica do Sean Baker é mais fora da caixinha e traz como mérito principal construir uma das personagens mais fascinantes da temporada. Pode representar um frescor que os roteiristas sempre gostam de prestigiar. 

Roteiro Original pode repetir o que houve nas temporadas de 2019 e 2023 quando, respectivamente, “Green Book” e “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” concorreram contra seus maiores rivais, no caso, “Roma” e “Os Banshees de Inisherin”.  

A Academia pode também encontrar um arranjo interessante: fazer um deles vencer aqui e deixar o outro para ganhar Direção, espalhando mais as estatuetas em vez de concentrar somente em um como ocorreu com “Oppenheimer”. 

GRANDES CHANCES – ROTEIRO ORIGINAL

“The Seed of Sacred Fig” aparece com grandes chances de indicação. Dificilmente, os roteiristas vão deixar passar a oportunidade de indicar o Mohammad Rasoulof até pela possibilidade real dele ficar fora de Direção. Seria uma nomeação de posicionamento político da Academia contra a censura e mais um aceno aos longas não falados em inglês, presentes nas últimas seis edições. 

Também considero “A Verdadeira Dor” muito próximo da indicação. O estilo cortante dos diálogos e a inteligência do roteiro em conseguir extrair bom humor com melancolia de um ponto de partida que poderia ser delicado mostra-se o grande acerto do Jesse Eisenberg. Uma indicação com cara de boas-vindas para o novo roteirista da praça. 

PODE SURPREENDER – ROTEIRO ORIGINAL

Com isso, então, sobra uma mísera vaga. E tem muita gente boa brigando por ela. 

A Coralie Fargeat venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes. A sátira jogando com o body horror de “A Substância” sobre um tema muito presente na indústria pode encontrar aqui seu espaço do que em qualquer outra categoria. 

Falando de assuntos que tocam a Academia, “Saturday Night” com os bastidores da primeira edição do maior humorístico da TV norte-americana, cheio de personagens conhecidos dos votantes cai como uma luva. Para completar, o Jason Reitman é um queridinho do Oscar que está doidinho para trazê-lo de volta.  

Já “September 5” é um candidato em ascensão nas últimas semanas. Para roteiro, favorece a grande gama de personagens que o longa traz, desenvolvendo-os cada um em seu tempo, e a colocar holofote sob um fato pouco conhecido de um acontecimento histórico. É o feijão arroz que a Academia ama. 

“Blitz” e “Hard Truths” apresentaram leves oscilações negativas nas últimas semanas, mas, trazem o tradicionalismo britânico que sempre cola na categoria. Que o diga o Kenneth Branagh faturando a estatueta em 2022 por “Belfast”.  

Exceto “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, todos os filmes norte-americanos do Yorgos Lanthimos tiveram seus roteiros indicados. Logo, ainda que seja difícil, não descarto “Tipos de Gentileza”.  

Agora, se a Academia quiser ser diferentona e fugir da curva, a opção seria “Didi”: por um lado, tem a questão da representatividade asiática muito em voga hoje no Oscar, porém, o perfil coming of age da comédia adolescente não me parece que convenceria muita gente a votar nele. 

CORRENDO POR FORA – ROTEIRO ORIGINAL

Correndo por fora, quase sem chances de indicação, estão “Tudo que Imaginamos como Luz”, “As Três Filhas”, “Memórias de um Caracol”, “Rivais”, “O Aprendiz”, “Guerra Civil”, “Jurado Número 2”, “Maria” e “Babygirl”. 

Se as indicações fossem hoje, os finalistas seriam: 

  • “O Brutalista” 
  • “Anora”
  • “The Seed of Sacred Fig”
  • “A Verdadeira Dor”
  • “A Substância” 

CORRENDO POR FORA – ROTEIRO ADAPTADO

Passando para o time roteiro adaptado, correm por fora “Nosferatu”, “Queer” e “Robô Selvagem”. Já entre os que podem surpreender tem um dos melhores textos do ano. 

PODE SURPREENDER – ROTEIRO ORIGINAL

Brincando com diversos gêneros, o Richard Linklater explora o fascínio das pessoas sobre as mentiras do mundo do cinema em “Assassino por Acaso”. Não bastasse a trama que consegue expandir a premissa simples para um jogo psicológico muito inteligente, ele ainda conta com diálogos primorosos. Talvez um clamor dos críticos e das redes sociais salvem o filme e seria aqui a possibilidade dele aparecer. 

O primeiro “Gladiador” apareceu na lista dos originais, perdendo para “Quase Famosos”. Caberá ao David Scarpa e o Peter Craig, indicado por “Top Gun: Maverick”, manterem a força do épico romano.  

“Divertida Mente 2” pode passar longe de ser dos mais originais, porém, tanto o universo do filme como a capacidade de trazer como protagonistas sentimentos humanos ainda se mostram encantadores. “A Lição de Piano” e “Canina” completam o time que tenta surpreender os favoritos para ficar entre os finalistas. 

GRANDES CHANCES – ROTEIRO ORIGINAL

Seis candidatos estão brigando forte para ficar com três vagas de Roteiro Original. 

Vencedor em 2003 pelo clássico “Fale com Ela”, o Pedro Almodóvar busca retornar à categoria com “O Quarto ao Lado”. Na estreia dele em inglês, o espanhol aborda o fim da vida rimando com a crise climática. A comparação com os melhores trabalhos dele no idioma original pode pesar contra, mas, o Almodóvar traz o prestígio para jogo para chegar ao Oscar. 

“Duna 2” mantém a excelência do primeiro filme, indicado na categoria, ao conseguir abordar todas as características do complexo universo da trama, fazendo referências com a religiosidade. Desta vez, os personagens conseguem ainda serem mais desenvolvidos, ampliando o peso emocional. A presença de sequências na categoria nos últimos anos – “Top Gun: Maverick”, “Glass Onion”, “Borat 2” – mostram que não há tanta resistência a filmes do gênero. 

Pode pesar contra o Denis Villeneuve apenas um sentimento de que é possível prestigiar outras produções nesta temporada de bons candidatos em Roteiro Adaptado e deixar para indicar “Duna” no terceiro filme. Uma conta que certamente muitos votantes podem fazer. 

Para as alas mais tradicionais da Academia, “Um Completo Desconhecido” chega como opção. Cinebiografias sempre têm apelo nas categorias de roteiro – que o digam “Oppenheimer” e “Maestro” neste ano. A obra reúne dois roteiristas já indicados ao Oscar: o James Mangold disputou de forma até surpreendente com “Logan”, enquanto o Jay Cooks foi nomeado por “A Época da Inocência” e “Gangues de Nova York”. 

Após trabalhos bem-sucedidos nos documentários, o RaMell Ross e a Joslyn Barnes resolveram estrear em roteiros de ficção apenas com “Nickel Boys”, obra vencedora do Pullitzer em 2020 escrita pelo Colson Whitehead. A ousada proposta de contar em primeira pessoa a dura história ambientada em reformatório nos anos 1960 arrancou elogios da crítica. Caso, de fato, não consiga ficar entre os finalistas de Direção, o RaMell Ross teria sua oportunidade de reconhecimento aqui. 

Depois de muitas idas e vindas, a Netflix definiu “Emilia Pérez” em adaptado. Os musicais não vencem a categoria desde “Gigi”, em 1959, mas, a mescla do gênero com o policial em uma trama que aborda a causa trans tem potencial para quebrar tabus. 

E, claro, tem “Ainda Estou Aqui”: o Murilo Hauser e Heitor Lorega chegam credenciados pela vitória de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, superando, inclusive, muitos candidatos fortes da temporada do Oscar 2025. Isso faz com que o filme seja obrigatório de ser assistido pelos votantes da categoria, algo sempre importante demais.  

Igual Roteiro Original, os adaptados estão dando cada vez mais espaço para obras não faladas em inglês, vide o que ocorreu com “Zona de Interesse”, “Nada de Novo no Front” e “Drive My Car”. No processo de uma parte puxar a outra, a força do elenco e da direção realçam ainda mais a qualidade do texto. “Ainda Estou Aqui” tem muitas chances de ficar entre os finalistas. 

VAGAS GARANTIDAS – ROTEIRO ADAPTADO

“Sing Sing” está com a vaga garantida em Roteiro Adaptado. Não bastasse a história em si sobre a reabilitação de uma pessoa presa pela arte, o filme ainda conta no time de roteiristas com ex-detentos como Clarence Maclin e John “Divine G” Whitfield que dimensionam todos os sentimentos ali presentes. Narrativa muito poderosa para a Academia deixar passar batido. 

“Conclave” vai por uma linha mais clássica ao ser adaptação do best-seller escrito por Robert Harris. Com um plot chamativo por si só – os jogos de poder e intriga na escolha do novo papa -, o roteiro do drama da Focus Features costura uma grande teia de personagens defendidos muito bem pelo seu elenco, segurando a tensão até o fim.  

Se as indicações fossem hoje, os finalistas seriam:

  • “Conclave”
  • “Sing Sing” 
  • “Emilia Pérez”
  • “Nickel Boys”
  • “Ainda Estou Aqui”