Imagine a importância da voz. Ouça com atenção. Esbraveje, se necessário. É preciso ouvir, ser ouvido, ser compreendido. Melhor, ser compreendida, se pensarmos na história de garra, força e busca por justiça de Eunice Paiva, Clarice Herzog e Thereza Fiel. Mulheres distintas, mas com algo em comum: a luta por justiça pelo desaparecimento de seus maridos, respectivamente, o deputado Rubens Paiva, o jornalista Vladimir Herzog e o metalúrgico Manuel Filho.

O rastro de sangue e os traumas impostos pela ditadura militar também trouxeram um novo olhar sobre a força feminina na busca por dignidade, justiça e o cumprimento da lei. Esses nomes tão fortes chamaram a atenção do então jovem cineasta Joatan Vilela Berbel, que, em seu documentário, buscou dar voz a essas mulheres para além das manchetes de jornais. Era preciso que as vissem, as ouvissem. O documentário é preciso, em primeira pessoa, em que elas falam com muita segurança sobre o processo que enfrentaram para honrar os nomes de seus maridos e chamar a atenção para as atrocidades da repressão vigente.

Restaurado em 2K, o curta-metragem “Eunice, Clarice, Thereza” volta aos holofotes após 46 anos, remasterizado, mostrando o poder da voz e da eloquência dessas mulheres ao denunciarem os abusos sofridos por suas famílias.

No momento em que ainda estamos extasiados com “Ainda Estou Aqui”, não há como não comparar o trabalho minucioso de Fernanda Torres. Sua Eunice é exatamente como a verdadeira: voz baixa, calma, mas o olhar denuncia a dor. Os closes nos seus olhos transcendem o horror sofrido; seus olhos falam. Por sua vez, Clarice é mais incisiva; seu corpo fala. Já Thereza, no alto de sua simplicidade, demonstra muita consciência.

O filme também é um retrato da época, com objetos mostrados em detalhes que suavizam os anseios dessas mulheres, dando significados à continuidade da vida e à presença/ausência de seus cônjuges.

“O judiciário tem que provar a verdade”, diz Clarice. É o que todos acreditam quando acontecem arbitrariedades como essas. Entretanto, sabemos que a justiça no Brasil, além de falha, é corrompida, desmantelando quaisquer possibilidades de esperança. É admirável a coragem delas em decidir encarar o sistema em prol de um bem muito maior: a liberdade coletiva e democrática de direitos.

“Eunice, Clarice, Thereza” está disponível no Cinelimite – inicialmente até 7 de abril de 2025 – e, logo após o filme, há uma extensa entrevista com seu realizador, que revela os detalhes da produção e da união dessas mulheres, mesmo distantes entre si, na certeza de que a justiça prevalecerá. Uma busca pela vida, pela democracia.

Ditadura nunca mais. E sem anistia!