Pamela Anderson: esse nome é uma marca, para o bem ou para o mal. Na minha visão, dispensa apresentações, muito mais pela persona em si do que por seus dotes artísticos, sempre explorada sexualmente. Afinal, as polêmicas envolvendo a eterna estrela de “S.O.S Malibu” (Baywatch) e os incontáveis ensaios para a Playboy tornaram-se maiores do que ela própria, minando quaisquer possibilidades de ser levada a sério enquanto atriz e celebridade.
Só que o tempo passa e, no mundo dos homens e da aparência, isso conta bastante. Anderson agora é uma mulher de 57 anos, defensora ferrenha da maquiagem zero e pronta para um recomeço em sua carreira, buscando papéis mais sérios.
The Last Showgirl revigora sua carreira artística, embora a maioria de suas produções seja esquecível. Dirigido por Gia Coppola, o filme conta a história de Shelly Gardner (Anderson), uma veterana showgirl do espetáculo Le Razzle Dazzle no Hotel Sahara, que recebe a notícia de que o show será encerrado em algumas semanas. E como recomeçar aos 57 anos, depois de três décadas dedicados exclusivamente ao show, tendo até aberto mão da maternidade ao ter uma relação tempestuosa com a filha Hannah (Billie Lourd)?
Shelly entra nesse conflito, atrelada aos louros do passado, com a incógnita de um futuro seguro, pois mulheres como ela estão marcadas e não têm aposentadoria. Mesmo que o show já não seja o mesmo de antes, ela acredita em sua arte, que se confunde com a própria história. Ao contrário das novatas Mary Anne (Brenda Song) e Jodie (Kiernan Shipka), que a veem como uma figura materna, mas compreendem que aquele é um lugar decadente, Shelly não tem essa noção ou não quer enxergar além dos brilhos e paetês. Sua fiel amiga Annette (Jamie Lee Curtis, em um visual exageradíssimo) também enfrenta problemas relacionados à sua idade, sendo considerada velha demais até para ser garçonete em um cassino. Completa o elenco o grandalhão Dave Bautista, em um personagem bem diferente dos que costuma fazer, surpreendendo como o gerente do hotel, um homem simples, tímido e de poucas palavras.
Confesso que não gostei tanto de The Last Showgirl, principalmente pela direção, fotografia e trilha sonora, que soam mais conceituais do que o filme realmente é. As cenas etéreas embaladas por uma trilha melancólica soam tão artificiais quanto a maquiagem de Jamie Lee Curtis. O grande destaque, no entanto, é Pamela Anderson, que faz um tipo ingênuo, saudosista e completamente imperfeito em suas ações. Ao mesmo tempo em que se compadece de sua crise, há uma torcida contra ela após uma atitude nada maternal em relação a Jodie. Entretanto, o grande trunfo do filme é suavizar e dar um novo significado à Mrs. Anderson, que, de fato, surpreende, dentro de suas possibilidades.
Não há como deixar de fazer um paralelo entre The Last Showgirl e o body horror A Substância, no que diz respeito ao descarte das mulheres mais velhas em prol de meninas mais jovens e sexys (e mais fáceis de serem manipuladas, se podemos ser sinceros), além de relembrar a mídia e o público que Pamela Anderson e Demi Moore, duas estrelas distintas, mas igualmente reconhecidas por sua beleza e sensualidade, envelheceram, mas a arte não, e estão ainda aí para mostrar que idade é apenas um número. Mas será que as oportunidades, depois desse momento de glória, virão?
A Shelly Gardner de Pamela Anderson é egocêntrica, gosta de ser vista, admirada, de ser alguém por um momento. E quem não quer ser alguém? Mesmo com o cuidado de Gia Coppola em não sexualizar exageradamente suas atrizes (um olhar feminino faz toda a diferença), o roteiro de Kate Gersten (The Good Place) é interessante, mas peca por ser básico e sem a complexidade necessária para se encaixar na direção pretenciosa.
Se fosse protagonizado por outras atrizes de sua faixa etária, o filme soaria como um grande comeback e uma reviravolta na carreira. Para Pamela Anderson, é a grande chance de sua vida, e sua vulnerabilidade é certamente louvável. Fica a expectativa para ver seus próximos passos.














