O Amazonas foi palco de uma tragédia sem precedentes durante a pandemia da Covid-19: de acordo com dados do painel epidemiológico da Fundação de Vigilância Sanitária, mais de 14 mil pessoas morreram no estado devido à doença. A primeira onda em Manaus levou a cenas inimagináveis, como corpos enterrados em valas comuns, enquanto a segunda onda foi ainda mais dramática, com a crise do oxigênio nos hospitais e dias com mais de 200 mortes.
Nesta situação dramática, milhares de pessoas foram forçadas a parar suas vidas completamente e ficar em casa, em uma convivência não planejada e diária com familiares, companheiros, amigos ou até mesmo sozinhas. Na estreia do diretor Bruno Pantoja na direção de curtas-metragens de ficção, Garrote mostra os efeitos desse processo para um casal recém-formado – João, um músico, e Maria, uma engenheira – presos em um apartamento.
“Precisamos rediscutir os traumas e os lutos deste período, porque o que aconteceu aqui foi terrível. A crise do oxigênio em Manaus foi contada de fora para dentro, sob o viés jornalístico. Temos que contar a história de dentro para fora, de quem viveu aquela hecatombe e como foram afetadas, na forma de viver e reagir às situações”, disse Bruno em entrevista ao Cine Set. Natural de Manacapuru, o diretor passou os piores momentos da tragédia sozinho na capital, longe dos pais que ainda moram no interior do Amazonas. “Senti falta de esperança, o medo bateu. Você começa a descobrir que não consegue mandar nem na própria cabeça, com tanta ansiedade. Ninguém saiu o mesmo da pandemia”, disse ele.
IMERSÃO COMPLETA
Aprovado no edital do Governo do Amazonas com recursos da Lei Paulo Gustavo, Garrote foi gravado na primeira quinzena de novembro de 2024 em um apartamento alugado especialmente para as filmagens no clássico Edifício Cidade de Manaus, no Centro da capital. Amanda Magaiver e Begê Muniz foram os primeiros a se ambientar no local, como forma de preparação para viver os personagens. “Tivemos acesso cerca de quatro dias antes. Ensaiamos as cenas e pudemos dar nossos pontos de vista para as interpretações dos personagens”, recordou Amanda.
A equipe técnica chegou em seguida para elaborar a direção de arte, os figurinos, além dos testes técnicos. Ao todo, 15 profissionais participaram do projeto, com orçamento de R$ 100 mil. Os últimos cinco dias foram dedicados às filmagens. O primeiro dia de gravação, entretanto, não foi a melhor das experiências para Bruno.
“Tinha tudo planejado e sob controle, mas, quando chegou a hora de tirar do papel, as coisas começaram a dar errado. Fui tratorado por não conseguir expressar o que queria, além de apostar em enquadramentos que não funcionavam. Tive que voltar para a prancheta, refazer mapas de câmera e luz, todos os storyboards. É como Sidney Lumet dizia sobre a necessidade de se adaptar”, declarou o diretor, ressaltando a importância de contar com uma equipe experiente capaz de ajudar e orientar. No time, a direção de arte ficou com Nonato Tavares, os figurinos com Socorro Papoula, assistente de direção foi Saleyna Borges, Maira Dessana foi a diretora de produção e a fotografia ficou a cargo de Thiago Morais.
Arquiteto de formação, Bruno iniciou no audiovisual em 2018, quando participou da Oficina de Produção Audiovisual no Museu Amazônico, ministrada por Thiago Morais. Antes de Garrote, ele comandou três documentários, entre eles Viva Sebastião e Tributo Chico Mendes, o que o levou a fundar com um grupo de amigos a Cia. de Artes Bacaba.
INSPIRAÇÃO EM RESNAIS
A inspiração para o filme veio da peça Cenas da Vida Banal, de Zemaria Pinto, que assumiu o roteiro do curta. “Na ocasião do edital, resgatei essa história por notar que poderia fazer um filme mais controlado, com um número menor de locações. Quis contar a dinâmica de um casal a partir de uma convivência não programada”, declarou Pantoja.
O diretor atribui a principal referência para Garrote ao clássico Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais. Para ele, a obra-prima de 1959 aborda tragédias coletivas a partir de uma tragédia pessoal. “Busquei metáforas parecidas, do sufocamento de uma cidade a partir deste casal. O próprio garrote faz referência a um método de execução na Espanha até a década de 1950 para gerar sufocamento. Temos no filme o sufocamento da relação, dos sentimentos, da esperança, da falta de ar”, disse.
Em fase de montagem, o curta deve ser lançado ainda neste ano, com previsão para uma sessão especial em março.













