“Cartografia das Ondas” é, na verdade, a cartografia de uma relação: a de Heloísa e Gledson. Ela, a diretora do filme; ele, seu parceiro de criação. Eles se conhecem, pensam em fazer um filme juntos, e então a vida acontece. De modo que “Cartografia das Ondas” é também a história do filme que eles não realizaram, mas que agora realizam.
Assim, teremos um filme dentro do filme: a história que a dupla criativa decide contar envolve uma prostituta grávida, um marinheiro e uma ilha para onde as damas da noite vão depois que morrem. Mas logo a trama se revela insuficiente e é preciso criar mais um personagem, mais uma história, para que a primeira possa ser contada.
Ou seja, é um filme dentro do filme dentro do filme, e mais ainda, um filme sobre filmar o filme dentro do filme — e fora dele também.
Esqueça tudo isso antes que seu cérebro dê um nó. Não é o mais importante. O xis da questão é o modo como os causos da vida real — ou seja, as vidas de Heloísa e Gledson — informam a ficção que se cria. Sem falar no modo como a própria realidade se torna ficcionalizada, numa via de mão dupla inesgotável. A vida acontece e demanda novas histórias, até que o jogo narrativo se torne confuso demais para uma breve recapitulação da sinopse.
Mas, além de ser um filme sobre a arte de contar histórias, “Cartografia das Ondas” é também um longa muito bonito e tocante sobre maternidade. O caráter coletivo e curativo das histórias que contamos remete a todos os alinhamentos necessários para se criar uma criança.
Este filme, como nos disse sua diretora antes da projeção, teve uma gestação de dez anos. Qualquer pessoa que assista ao longa sairá da sessão se perguntando que histórias os próximos anos trarão para esses dois narradores.











