Diego Bauer está tendo um início de 2025 intenso: nas primeiras semanas do ano, ele iniciou as gravações do longa “Obeso Mórbido”. O projeto expande o escopo do elogiado curta-metragem de 2018 rodado ao lado de Ricardo Manjaro. As filmagens retornam no mês de março quando Diego precisa engordar entre 15 e 20kg.
Enquanto faz uma dieta à base de carboidratos, o diretor, roteirista e ator amazonense viajou para Minas Gerais para participar da Mostra de Tiradentes 2025. Bauer apresenta “Ri, Bola”, curta-metragem selecionado na Mostra Panorama do tradicional evento que abre o circuito de festivais do cinema brasileiro. O filme aborda o desaparecimento da risada peculiar de Felipe Maya Jatobá, o Bola, como ponto de partida. Ao lado do fotógrafo César Nogueira, o diretor-geral do grupo teatral amazonense Jurubebas percorre uma jornada para refletir e superar traumas e uma tragédia familiar para voltar a rir.
Em Tiradentes, Diego concedeu uma longa entrevista ao Cine Set em que aborda os bastidores e desafios do longa de “Obeso Mórbido”, as experimentações de “Ri, Bola” e a baixa participação nortista na Mostra.
Cine Set – Como o longa “Obeso Mórbido” se difere do curta-metragem?
Diego Bauer – Cronologicamente, voltando para 2018, tínhamos uma ideia muito ligada a um estado específico da transformação que passei ao perder 48 kg em 1,5 ano. Estava com 78 kg pela primeira vez na vida. O curta tinha uma energia imediata, quase sensorial, um estado de espírito. O pensamento que passava pela minha cabeça era: “sou gordo, sou gordo desde sempre e, neste momento, não estou gordo.” Logo, como fica a cabeça nesse processo? Fizemos um filme bem curto, totalmente focado na sensação, sem ter exatamente uma narrativa ou história. Nos sentimos contemplados com o resultado do curta. Foi o meu primeiro trabalho que conseguiu circular em mais festivais e lugares.
Em 2020, o projeto de desenvolvimento de roteiro para o longa-metragem de “Obeso Mórbido” foi aprovado na Lei Aldir Blanc. Rapidamente, eu e Ricardo Manjaro (co-diretor do curta) identificamos que a ideia da estética sensorial, o filme de um estado de espírito, muito dificilmente conseguiria se sustentar em um longa-metragem, dado as nossas capacidades como diretores. Não confiávamos tanto que um longa de 70 ou 80 minutos fosse se sustentar dessa forma.
Aos poucos, fomos desenvolvendo mais o drama da história, criando uma narrativa de duas partes, mas mantendo o sentimento de inadequação do “estou magro, mas sou gordo”. A primeira metade foca em como tudo é novo, estimulante, excessivo no sentido de usar o corpo para coisas que nunca fiz, enquanto a parte final me mostra 15 a 20 kg mais gordo, em uma volta à normalidade, sem a obsessão pelo padrão físico.
Gravamos a primeira parte agora em janeiro e estou no processo de engordar para retomarmos na segunda semana de março.
Cine Set – Qual é a dieta para engordar?
Diego Bauer – É comer muito carboidrato: arroz, farinha, macarrão, sorvete, chocolate. Tudo isso acompanhado por um nutricionista.
Eu estava com nutricionista e personal para ficar magro na primeira fase que gravamos, então cheguei a um peso legal para filmar. Agora, é o processo reverso. O nutricionista até me disse: “Nunca fui contratado para fazer alguém engordar rápido em um curto período de tempo”. E ainda estou no melhor lugar possível: Tiradentes tem uma culinária incrível.
Não estou mais tão acostumado a comer muita besteira. Passei uma semana achando que estava na Disney, mas agora bate aquela sensação de comer sem vontade. É estranho, mas da mesma forma que não questionava o período de treinamento para emagrecer, busco fazer o mesmo agora.
Cine Set – Você tem medo do momento posterior, quando terá que voltar aos eixos? Como será depois da comilança?
Diego Bauer – Se disser que não, acho que estarei sendo hipócrita. Esse processo, de modo geral, é um flerte com coisas muito perigosas da minha história, e colocamos isso de propósito nesse lugar.
Quando lançamos o curta, na minha cabeça e na do Ricardo, estávamos fazendo uma ficção, mas a impressão da maior parte do público foi de que fizemos um documentário. Agora, no longa, ficará indiscutivelmente uma ficção, por conta de ser uma narrativa, uma história bonitinha, mas, ao mesmo tempo, é claro que há elementos pessoais reais ali, como demônios, medos e inseguranças que carregamos ou carregamos. Voltar a engordar vertiginosamente em um processo desenfreado é algo que não faço há muito tempo.
É um processo perigoso para mim, para a minha saúde. Estou tentando não pensar muito sobre isso, porque esse é o trabalho, a proposta, é o filme que queremos fazer. Há algo de exposição pessoal em fazer um filme sobre o meu corpo. Então, o meu corpo estará presente no filme de todas as formas que você imaginar. A questão do processo de engorda e tudo o que isso envolve passa por questões bem pessoais.
Cine Set – E a escolha de não protagonizar o filme? Isso nunca passou pela sua cabeça?
Diego Bauer – Eu adoraria, mas… esse é um ponto. Claro que haveria atores que topariam fazer isso em Manaus, mas teria um peso diferente se essa pessoa fosse eu. Com isso, há um aspecto metalinguístico que gera um interesse adicional no projeto.
Sinto que sou muito mais diretor do que ator no set. Preciso admitir que vou me aposentar em breve da atuação para o audiovisual. Eu gosto do meu trabalho na primeira parte do longa – não é falsa modéstia –, mas prefiro a direção. Dentro desse aspecto, vejo facilmente artistas em Manaus que conseguem fazer coisas que eu já não consigo mais.
Como diretor, penso que é muito legal ter um ator incrível que vai fazer algo espetacular que poucas pessoas seriam capazes de realizar. Depois de “Obeso Mórbido”, duvido que eu vá fazer outro protagonista de longa. Acho que é uma boa forma de me aposentar (risos).
Claro que, se o Gabriel Mascaro me chamar, eu vou, mas cansei da vida de ator, de fazer testes, da expectativa pelo resultado, da aleatoriedade da escolha – pode ser o perfil da pessoa, sorte, alguém querer mais que você. É uma carreira ingrata, difícil. Prefiro gastar essa energia na direção ou no roteiro de um trabalho sobre o qual tenho certo controle, do que na atuação, que depende de um convite.
Isso não significa, porém, que vou deixar de atuar. Será mais focado no teatro e, eventualmente, em pontas nos meus próprios filmes.
Cine Set – “Ri, Bola” é um curta que mantém esse pé entre a ficção e o documentário com um tom particular de humor, nos deixando norteados. Como você observa esses dois aspectos?
Diego Bauer – Informamos para a organização da Mostra de Tiradentes que é um curta híbrido – até foi anunciado assim na programação. Na minha cabeça, é uma ficção claramente. Partimos sim de um fato – o Bola perdeu o timbre da risada dele. Esse é o mote do filme.
A partir daí, entretanto, tudo é inventado. Entrevistamos o Bola e o César por duas vezes, longamente, e criamos o roteiro a partir disso. A gravação foi igual a qualquer outro filme que fiz. Tudo muito dirigido, com repetições, orientação dos atores e uma decupagem detalhada. É uma ficção como qualquer outra.
Só que usamos uma estética de documentário, uma estética real, seja nos locais onde filmamos, seja nas roupas deles nas rotinas deles. Momento sincericida: “Ri, Bola” é uma cópia descarada do “Di Cavalcanti”, do Glauber Rocha, sendo que a dele é muito melhor, claro (risos). Eu sempre senti que valeria a pena trazer o fazer do filme para dentro de “Ri, Bola”.
Agora, uma investigação que tento fazer no curta é sobre o fato de a risada ser uma característica de todos nós. A forma como você ri, do que você ri, e a maneira nada racional de achar graça em algo. O estilo de comédia que o Bola gosta, por exemplo, é o besteirol, coisas bobas como pegadinhas ou alguém tropeçando na rua. Se estou fazendo um filme sobre a amizade dos dois e sobre o César tentando fazer o Bola rir, é claro que vai ter “As Branquelas”, que ele adora e até cita no curta.
Isso tudo mistura e experimenta filmes dentro do filme, com experimentações de câmera, som e montagem. Vira um grande flerte entre o documentário e a comédia, que, aliás, considero o gênero mais declaradamente ficcional de todos.
Cine Set – E como surge a ideia de filmar em preto e branco?
Diego Bauer – O equipamento de câmera de “Ri, Bola” é o mesmo de “Enterrado no Quintal”: uma Handycam. Naquele filme, fizemos alguns testes em preto e branco e o ganho foi absurdo. Parecia película.
Daí, eu tinha acabado de fazer o “Terra Nova”, que, admito, é um tipo de filme que não quero mais fazer no sentido de ser muito convencional, clássico, comportado, tudo focado na trama, na história. Apesar de o tema da pandemia estar presente nos dois curtas, decidi fazer algo totalmente diferente.
Inspirado nos testes que já havíamos feito em “Enterrado no Quintal” e tentando criar algo o mais diferente possível de “Terra Nova”, “Ri, Bola” surgiu com a ideia de radicalizar a estética, com a câmera sempre em movimento, louca, desfocada. O preto e branco leva intuitivamente as pessoas para o documentário, os bastidores de um filme, e potencializa o contraste muito forte entre drama e comédia.
Isso cobra um preço, claro, com muita gente desistindo logo de cara, especialmente a partir de uma fala problemática do César e da fala pesada do Bola. Acho que o preto e branco soma às contradições estilísticas e temáticas, além de gerar a dúvida sobre se a pessoa deve rir ou ficar séria. Há um quê de provocação que eu gosto, pois torna o filme mais sóbrio e até sério.

Diego Bauer já dirigiu os curtas “O Tempo Passa”, “Enterrado no Quintal”, “Obeso Mórbido” e “Terra Nova”.
Cine Set – “Ri, Bola” foi feito pela Lei Aldir Blanc?
Diego Bauer – “Ri, Bola” foi feito pelo cheque especial.
A gente se inscreveu com três projetos no edital da Manauscult. Em nenhum momento, as regras diziam que o mesmo proponente não poderia enviar mais de uma proposta; apenas falavam que a Pessoa Física ou Jurídica só teria um projeto contemplado. Saiu o resultado preliminar e “Ri, Bola” estava com a nota máxima. Porém, no resultado final, o nosso projeto foi excluído. Curiosamente, a proposta selecionada tinha uma nota menor.
Claro que, quando pegamos um dinheiro público para fazer um filme, precisamos prestar contas de tudo o que foi feito com o recurso. Dito isso, ainda é uma obra artística. Não precisa estar necessariamente vinculada a uma bandeira de uma minoria – o que, obviamente, é importante. Mas também acho totalmente plausível que o edital público preveja uma obra artística que tente outro tipo de contexto, de experimentação. Afinal, quando o filme circular, estará o nome do Amazonas indo para o Brasil e o mundo todo.
Para fazer de forma independente, precisei enxugar bastante as ideias que tinha pensado e contei com a amizade, carinho e afeto de toda a equipe do filme, que trabalhou por preços irrisórios. Gravamos “Ri, Bola” na raça e com o meu cheque especial – o mesmo esquema utilizado em “Enterrado no Quintal”.
Esses sacrifícios, aliás, são bem visíveis em Tiradentes. O ideal é trabalhar com um bom orçamento, mas, por vezes, também acho que é preciso experimentar e encontrar maneiras de fazer as coisas. Eu me senti seduzido a tirar “Ri, Bola” do papel. A dívida e as cobranças do banco ficam ali, ninguém ganha dinheiro, mas gera satisfações que são muito maiores do que isso.
Cine Set – Como você convence a equipe a trabalhar por um salário de fome?
Diego Bauer – (risos) Minha sorte é que a esmagadora maioria da equipe que trabalha comigo está ao meu lado há muito tempo. Então, de alguma maneira, acho que estabelecemos uma relação de confiança. E quando há um projeto que paga melhor, todo mundo recebe melhor, logo, há uma maneira transparente de explicar a razão de fazer um curta como “Ri, Bola” sem orçamento.
Busco suavizar a produção do filme o máximo possível e tento reduzir a quantidade de dias de gravação ao mínimo necessário. No fim das contas, há uma relação mútua de confiança – tanto que quase toda a equipe de “Ri, Bola” está sendo bem remunerada agora com “Obeso Mórbido”.
Cine Set – Para você, qual a importância de exibir o filme na Mostra de Tiradentes?
Diego Bauer – É muito especial. Não tem como. Sou jornalista e minha relação com o cinema vem muito do jornalismo. Antes do Cine Set e das críticas, eu era maluco pelo Cineplayers. Acompanhava a cobertura deles direto de Tiradentes.
Fuçava a programação do festival e procurava links de curtas ou longas que tinham passado por aqui em edições anteriores. Lia as críticas. Na época, eu não tinha feito nada no audiovisual; era apenas ator de teatro. Sonhar em fazer filmes era algo tão distante. Nem falava isso em voz alta.
Quando “Obeso Mórbido” foi selecionado, eu surtei, não acreditava. Depois veio “Enterrado no Quintal” no ano da pandemia, e eu nunca senti uma repercussão tão grande com algum curta meu como naquela vez em Tiradentes. As pessoas, de modo geral, apreciaram o filme feito na raça com a Handycam… Não sei se a gente faz um curta acreditando em uma série de coisas, correndo o risco de passar uma vergonha enorme e, ao ser exibido, o público compra aquela loucura e viaja no que propomos.
E o “Ri, Bola” passar aqui é aquela coisa de ter uma conexão entre o cinema que faço e Tiradentes. Logo, não tinha como deixar passar desta vez. Estou inscrevendo o filme em diversos festivais e ele só foi selecionado em três. Aqui, encontramos outras pessoas que estão em um rolê bem parecido conosco, fazendo curtas há 10 anos e, hoje, são diretores de longas com circulação em festivais nacionais e internacionais.
Tiradentes é um respiro, uma forma de manter alguma confiança na loucura de fazer filmes sem perspectiva, jogando para o futuro, querendo acreditar e pensar que estaremos em outra condição daqui a algum tempo. Tenho o sonho de estar aqui na Mostra Aurora em 2027 com “Obeso Mórbido”.
Cine Set – Como você observa a participação da Região Norte na Mostra de Tiradentes?
Diego Bauer – Estava vendo a lista de filmes da programação do festival. A quantidade de filmes inscritos da Região Norte equivale a apenas 2% do total. E tivemos apenas uma produção do Amazonas, uma do Acre e uma do Pará. Isso me deixa assustado.
Não sei se as pessoas se sentem desestimuladas a enviar seus filmes, mas precisamos ocupar esses espaços. Eventos como esses acontecem e, muitas vezes, pensamos que não fazemos parte deles – o que, de fato, acontece, seja geograficamente ou pela baixa presença de selecionados. Estar aqui gera situações muito amplas, tanto para atrair profissionais quanto para fazer o filme alcançar mais caminhos.














