Chico Díaz tem uma cara boa de se olhar. Seu rosto sulcado guarda dois topázios brilhantes no lugar dos olhos, como cristais que refletem um fiapo de sol no interior de uma caverna escura. Qualquer filme que se paute apenas pela sua presença vai dar certo.

Infelizmente, mesmo que Díaz esteja presente em toda a projeção de “Girassol Vermelho”, sua presença aparece subaproveitada. O diretor Eder Santos recobre o ator em névoas coloridas e cumpre hora extra na busca por um suposto lirismo, que nunca chega a encontrar.

Por isso que nenhuma imagem se mostra realmente forte. Mesmo quando cria cenários fantásticos sob um céu escarlate, a plasticidade do filme resulta distante, comedida. E isso é antes de nos darmos conta de que “Girassol Vermelho” se coloca como uma distopia kafkaesca, em que o Romeu de Díaz vive provações dignas de Joseph K.

Daniel de Oliveira também dará o ar de sua graça, discursando na tela de uma TV de tubo à la Grande Irmão. Os neons laranjas e azuis talvez te façam pensar em “Blade Runner”, enquanto o clima onírico sugere um Terry Gilliam mais comedido, mas igualmente brega. O design de som, prenhe de chiados e assobios distantes, e os diálogos fraturados e vagos sugerem mesmo um clima de transe que não se desenvolve, uma musicalidade que não chega a nos embalar.

O que sobra é a competência técnica das equipes de fotografia e direção de arte, que concebem toda uma cidade distópica no que parece ser um único armazém industrial. Ou seja: trata-se de um bom demo reel, não um bom filme. Há mistério no filme? Não. O mistério está no rosto de Díaz, que persevera corajosamente em meio às maquinações enevoadas de seu diretor.