Caio Pimenta analisa os pontos fortes e fracos de Fernanda Torres, Demi Moore, Mikey Madison, Karla Sofia Gascón e Cynthia Erivo para a disputa de Melhor Atriz no Oscar 2025.
Cynthia Erivo: Fora da Disputa?
Das cinco indicadas, a única sem chances de levar o prêmio é Cynthia Erivo.
Apesar de aparecer em todas as premiações pré-Oscar, a estrela de Wicked chega em segundo plano na disputa.
O fato de o filme ser apenas a primeira parte da história deixa a sensação de que é possível esperar a próxima temporada para consagrá-la. Mesmo com as 10 indicações, a produção da Universal Pictures surge em segundo plano em todas as categorias principais, abaixo de Anora e Emilia Pérez, por exemplo.
Se Wicked 2 for tão bom quanto o primeiro filme, acredito que Erivo será uma candidata fortíssima para a temporada de 2026. Nesta edição, a indicação já é uma vitória.
Karla Sofia Gascón: Vantagens e Desafios
Com quatro candidatas no páreo, vamos analisar as forças e fraquezas de cada uma, começando por Karla Sofia Gascón.
A estrela espanhola carrega o nome da personagem-título do filme mais indicado ao Oscar 2025, o que garante uma visibilidade enorme e associa imediatamente o longa a ela. Alas progressistas e politizadas da Academia podem enxergar na consagração da primeira artista trans uma resposta às políticas reacionárias de Trump, anunciadas nos primeiros dias de seu governo, além de todo o simbolismo social e artístico que isso poderia gerar.
Por outro lado, esse fator pode jogar contra: afinal, Trump foi eleito de forma robusta nos EUA – venceu o voto popular –, e haverá aqueles que não vão querer se envolver com o presidente tão cedo ou passar a imagem de que estão indo contra a população. Muitos podem considerar que a indicação já é suficiente. Isso sem contar os setores mais conservadores e republicanos da Academia, que provavelmente não votarão em Gascón.
Além disso, os problemas para Gascón vão além da política. O questionamento sobre se ela é realmente a protagonista de Emilia Pérez, ou se Zoe Saldaña poderia ser mais indicada, pode tirar votos, especialmente com a provável vitória de Saldaña como coadjuvante. Para piorar, a informação de que a voz dela foi modificada por inteligência artificial para aumentar o alcance vocal será muito usada contra sua campanha.
Mikey Madison: A Tradição de Atrizes Jovens
Destaque de Anora, Mikey Madison chega ao Oscar 2025 para tentar manter uma tradição. Ariana DeBose, Emma Stone, Brie Larson, Alicia Vikander, Lupita Nyong’o, Jennifer Lawrence, Charlize Theron, Hillary Swank, Marlee Matlin e Sally Field: a Academia sempre gostou de prestigiar belas, jovens e talentosas atrizes ao longo da história. Mikey Madison seria mais um nome para essa extensa lista. Assim como Karla Sofia Gascón, ela carrega o nome da personagem de um dos filmes mais fortes da temporada, com visibilidade enorme desde o Festival de Cannes.
Além disso, a atuação de Mikey Madison possui diversas nuances, indo da stripper sexy à mocinha da comédia romântica, passando por momentos de fúria, humor e drama. Toda essa gangorra emocional que ela executa brilhantemente pode levar muitos votantes a considerar que ela tem um trabalho completo – o que não deixa de ser verdade.
Porém, esta temporada se mostra focada em interpretações femininas de personagens mais maduras, o que coloca Mikey na contramão dessa tendência. Isso pode levar os votantes a enxergarem a indicação de Madison como uma maneira de dar-lhe as boas-vindas, deixando a estatueta para um outro momento.
Demi Moore: A Favorita para Melhor Atriz
A grande favorita da temporada para Melhor Atriz segue sendo Demi Moore, e motivos não faltam para acreditar nisso.
A estrela de A Substância carrega a narrativa da temporada: a luta contra o etarismo e a pressão da beleza estética para as mulheres. O fato de o próprio filme ter paralelos com a trajetória dela impulsionou ambos. Ser um retorno de Demi Moore após anos de ostracismo e também nunca ter sido indicada ao Oscar, com a possibilidade de esta ser sua maior chance, favorece sua campanha.
Porém, nem tudo são flores para Moore. A última vez em que a protagonista de um filme de terror venceu o prêmio foi Jodie Foster, por O Silêncio dos Inocentes, em 1992. Antes dela, Kathy Bates, por Louca Obsessão, no ano anterior. Para piorar, A Substância é muito mais pesado do ponto de vista gráfico do que essas duas obras-primas, o que aumenta a resistência de muitos votantes, que podem desistir de votar nela devido ao gore.
Além disso, Demi não é unanimidade em Hollywood, como prova o fato de só ter sido indicada agora. Infelizmente, preconceitos não se apagam do dia para a noite, e isso pode pesar contra ela.
Fernanda Torres: Uma Candidatura Promissora
Chegamos então a Fernanda Torres. A brasileira tem ótimos motivos para acreditar em uma possível vitória no Oscar de Melhor Atriz.
Junto com Demi Moore, Fernanda é o nome do momento na temporada, com um holofote que nem mesmo a mãe, Fernanda Montenegro, Sonia Braga, Rodrigo Santoro ou qualquer outro brasileiro teve em Hollywood – a exceção talvez seja Carmem Miranda, nos anos 1940. Isso ajudou Ainda Estou Aqui, que agora é o filme mais em alta da temporada após surpreender o mundo ao ser indicado a Melhor Filme.
A Sony Pictures Classic está fazendo uma campanha impecável, e a tendência é que ela cresça à medida que Ainda Estou Aqui se expanda no circuito americano. O impacto da vitória no Globo de Ouro ainda persiste na memória dos votantes e pode ser o único evento dessa magnitude que Hollywood experimenta durante a temporada.
O maior ponto forte de Fernanda, na minha visão, é que ela está no filme com formato de linguagem mais clássico e universal entre todos os indicados. Wicked e Emilia Pérez são musicais, gênero com resistência em algumas alas do público e da Academia. A Substância surpreendeu por ter ido tão longe devido à violência gráfica, enquanto Anora é um conto de fadas cínico e longe do convencional. Ainda Estou Aqui é um drama histórico que resgata um fato pouco conhecido do público mundial e traz à tona um alerta para o planeta em tempos políticos delicados, sendo exatamente o tipo de produção que a Academia costuma prestigiar.
No entanto, o cenário não é perfeito. Fernanda Torres é a menos conhecida de todas as indicadas, e seu filme também precisa se destacar mais. Além disso, há a barreira do idioma e das legendas, um obstáculo para qualquer produção de língua não-inglesa. O pior é que ela não está indicada ao Bafta, Critics’ Choice nem ao SAG.
Este é o maior desafio: enquanto as outras quatro indicadas estarão com um holofote gigantesco, Fernanda ficará de fora dessas premiações. O melhor cenário seria uma divisão nas premiações, com Demi Moore, por exemplo, vencendo no SAG e Critics’ Choice e perdendo no Bafta – se for para Marianne Jean-Baptiste, melhor ainda, pois isso abalaria Erivo, Madison, Gascón e Moore.
Um cenário assim cria incerteza até o Oscar, o que é perfeito para a brasileira. Agora, se Demi Moore dominar tudo como esperado, aí a situação se tornará bem mais difícil.

















