Caro leitor, você com idade para se lembrar de 20 anos atrás, acompanhe-me numa viagem no tempo: lembra da última série que assistiu com 22 ou 24 episódios por temporada? Recorda da época em que tinha que assistir o episódio da semana em determinado dia e horário para não depender de uma reprise? Lembra de quando você não precisava esperar três anos por uma nova temporada da sua série favorita? Você se recorda da época em que não tinha (quase) tudo ao alcance de um clique e da sua conveniência?

E qual era o maior fenômeno daquele período? Resposta fácil: Lost (2004-2010). Sim, já faz 20 anos que conhecemos os sobreviventes do voo 815 da Oceanic, cujo avião caiu numa ilha desconhecida, onde acontecem coisas fantásticas, um experimento científico, uma escotilha, um monstro de fumaça e uma antiga luta do bem contra o mal.

Lost foi o derradeiro fenômeno de uma era das séries norte-americanas. Existem quatro grandes redes de TV aberta nos Estados Unidos: a ABC, a CBS, a NBC e a Fox. A ABC, coitada, não tinha um seriado de sucesso há tempos e foi quando um dos seus executivos teve a ideia de um programa sobre umas pessoas que ficam abandonadas numa ilha após um acidente aéreo – a comparação era o filme Náufrago (2000) com Tom Hanks encontrando o reality show Survivor. Essa noção bem vaga acabou indo parar na produtora Bad Robot, de J.J. Abrams.

Não são poucos que sempre o mencionam quando falam de Lost, mas de fato as grandes contribuições de Abrams foi ter dirigido de forma bem energética o episódio-piloto, o mais caro da época – estima-se que custou entre 10 e 14 milhões de dólares – e ter delimitado algumas noções lá no início da produção. Quem tocou mesmo a série foram os roteiristas/produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, que transformaram Lost numa fantasia, onde os mistérios e o elenco carismático mantinham o espectador assistindo.

E de fato, aí estão algumas razões para o fenômeno Lost:

Elenco diverso

Bem antes de diversidade virar de fato uma pauta na indústria do entretenimento, Lost trazia um elenco internacional e diverso. Dadas as limitações da época, até que a série fez um bom trabalho em dar tempo de tela e profundidade a personagens de diferentes etnias. Ora, para um programa da TV aberta da época, foi muita ousadia fazer episódios centrados no casal Sun e Jin (Yoon-jin Kim e Daniel Dae Kim), com quase todos os diálogos em coreano.

Os mistérios

Lost criou de forma orgânica toda uma mitologia em torno da ilha e sua importância. Em uma época em que se podia discutir na internet cada minúcia e novo elemento que os episódios traziam – embora não tão profundamente como agora, afinal ainda não havia Instagram e X – o público se viu seduzido. Aliás, no fim das contas, isso marcou a derrocada da série aos olhos de muitos espectadores, quando vários se deram conta de que nem todos os mistérios da ilha seriam explicados. Bem, os mais importantes foram…

Aproveito para falar logo do elefante na sala: a mitologia de Lost foi sendo construída ao longo dos episódios, e como na grande maioria dos casos, não havia um plano para a trama desde o início. Mas se você é desses que faz questão de tudo explicado, leitor, digo isso: desconfie quando o produtor ou criador de um grande sucesso diz que já tinha tudo definido desde o começo. Apesar de todo o papo do George Lucas, é óbvio que Star Wars não foi concebida em sua totalidade nos anos 1970. Breaking Bad também foi sendo inventada na hora. Muitos espectadores gostam de tudo explicadinho nos seus filmes e séries, porque a vida não tem explicações. De minha parte, aprecio o mistério e não faço questão de que absolutamente tudo seja definido.

A experiência interativa

Muitas pessoas não só assistiam a Lost, elas viviam a coisa toda. Era parte da experiência discutir com os amigos, fazer maratonas das temporadas anteriores em DVD, entrar em sites para ler teorias ou ver entrevistas com atores ou membros da produção… O seriado foi um fenômeno verdadeiramente transmidiático, que extrapolava os limites de um episódio de 42 minutos. Lost colocava o público para participar, não só assistir, e boa parte desse processo acontecia de forma espontânea com os analistas online – leia-se, gente comum – se debruçando sobre detalhes das tramas e imaginando para onde elas poderiam ir.

O suspense e as surpresas

Antes de Game of Thrones começar a matar seu elenco quando menos se esperava, Lost já fazia isso. As viradas súbitas de trama e acontecimentos inesperados faziam com que o espectador ficasse em permanente atenção, bem como as experiências narrativas com flashbacks e flashforwards. Tudo isso fazia com que o seriado parecesse imprevisível e diferente, e as pessoas gostam de ser surpreendidas e de ver coisas diferentes, por mais que os algoritmos de hoje tentem nos convencer do contrário.

E o legado?

O episódio-piloto de Lost teve 18 milhões de espectadores nos EUA. Mesmo que a audiência tenha diminuído nas temporadas finais, ainda assim milhões viram o final da série ao vivo. É seguro dizer que Lost foi o último grande fenômeno de massa a sair de uma rede aberta americana. Todas as outras grandes séries que mexeram com o público desde então vieram dos canais a cabo, onde se dá mais ênfase à visão do produtor, o showrunner, e com menos episódios.

Hoje, na era do streaming, chegamos a um ponto em que grandes sucessos como Stranger Things na Netflix, The Boys no Prime Video, ou A Casa do Dragão no Max, podem se dar ao luxo de coisas impensáveis na época de Lost, como uma espera de anos entre temporadas e produção mais grandiosa. Essas séries também parecem ter grande cuidado com a construção de suas mitologias, para evitar furos ou coisas não explicadas que possam irritar boa parte dos espectadores – Se conseguem, aí é outra história…

Na atualidade, a garotada ou espectadores de primeira viagem que forem maratonar Lost no Disney + ou na Netflix não se darão conta de como era a sensação de esperar por um novo episódio, ou discutir teorias com amigos ou online. Esse público até vai poder se divertir com a série, mas também vai perder alguma coisa da experiência.

E vendo em retrospecto, alguns dos temas que Damon Lindelof abordou em Lost, ele trabalhou melhor anos depois em The Leftovers (2014-2017) – na opinião deste que vos fala, a melhor série da HBO desde o fim de Família Soprano e uma obra-prima da narrativa episódica. Até o mistério da trama, ele fez questão de dizer logo de cara que nunca explicaria, para evitar reclamações posteriores – gato escaldado… E depois ele criou e produziu a também fantástica Watchmen (2019), ainda para a HBO, então pelo menos a meu ver ele se redimiu completamente de qualquer reclamação sobre o final de Lost.

E esse final, com certeza, define como a série é vista hoje. De minha parte, tenho minhas reservas com ele, mas não o considero o desastre que muita gente pinta. Depois de anos e anos de mistérios e antecipação, é muito, muito difícil não vir com algo que decepcione o público – o mesmo ocorreu com Game of Thrones.

Ainda assim, particularmente, Lost me deu alguns momentos incríveis onde fiquei de boca aberta. São momentos que guardo, por mais que a jornada como um todo tenha lá seus momentos acidentados. E se 20 anos depois ainda falamos da série, nem que seja para reclamar, é porque ela foi marcante de alguma forma. Será que daqui a duas décadas relembraremos de alguns dos sucessos do streaming de hoje? Veremos…