Poucos cineastas tiveram uma relação tão duradoura com o desconhecido quanto Steven Spielberg. Ao longo de quase seis décadas de carreira, o diretor retornou repetidamente a discos voadores, visitantes extraterrestres, inteligências artificiais, tecnologias futuristas e conspirações governamentais. Em uma leitura superficial, sua obra poderia sugerir uma fascinação constante por aquilo que existe além da compreensão humana. Mas revisitar seus filmes em sequência revela algo diferente: o cineasta nunca esteve particularmente interessado em responder se estamos sozinhos no universo. O que realmente parece movê-lo é compreender como reagimos quando descobrimos que talvez não estejamos.

Essa diferença é fundamental para entender sua filmografia.

Nascido em Cincinnati, em 1946, Spielberg cresceu em uma América moldada pela Guerra Fria, pela corrida espacial e pela crença de que a tecnologia era capaz de resolver qualquer problema. Filho de Arnold Spielberg, engenheiro elétrico envolvido com o desenvolvimento de computadores, e Leah Adler, pianista, ele cresceu entre dois mundos que definiriam seu cinema: a racionalidade científica e a imaginação artística. A separação dos pais durante sua juventude acrescentaria um terceiro elemento igualmente importante. Não por acaso, famílias desestruturadas, pais ausentes e relações afetivas em reconstrução aparecem com frequência em sua obra, muitas vezes servindo como núcleo emocional de histórias aparentemente voltadas para o fantástico.

Antes mesmo de chegar à ficção científica, Spielberg já ensaiava algumas dessas inquietações. Em Amblin, curta-metragem que anos mais tarde daria nome à sua produtora, acompanha dois jovens percorrendo estradas americanas em um romance de verão marcado pela incerteza. Em Encurralado, transforma esse mesmo espaço em um território de paranoia, onde um homem comum passa a ser perseguido por uma ameaça que nunca compreende completamente. Embora distantes da ficção científica, ambos os filmes revelam um diretor interessado em personagens confrontados por algo maior do que eles, uma sensação de deslocamento que atravessaria grande parte de sua carreira.

Essa inquietação encontra sua forma definitiva em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). O contexto de lançamento do filme é importante. Os Estados Unidos ainda lidavam com as consequências do Vietnã e do escândalo de Watergate, eventos que abalaram profundamente a confiança da população em suas instituições. Em outras mãos, a história poderia se transformar em um thriller paranoico sobre governos escondendo informações da população. Spielberg até flerta com essa possibilidade, mas seu interesse está em outro lugar.

O governo mente, manipula e controla informações, mas o centro da narrativa não está na conspiração. Está na busca. Roy Neary observa algo que desafia tudo aquilo que conhece e passa a perseguir respostas com uma obsessão quase espiritual. Ao seu redor, pessoas de diferentes idiomas, culturas e crenças tentam compreender uma mesma mensagem. O extraordinário não surge para destruir o mundo ou provar a superioridade de uma civilização sobre outra. Surge para conectar.

Existe um idealismo evidente em Contatos Imediatos. Spielberg parece enxergar o contato extraterrestre como uma oportunidade de comunicação universal, uma crença que refletia não apenas seu momento de vida, mas também um certo imaginário americano ainda marcado pelo fascínio da exploração espacial e pela ideia de progresso. Décadas depois, o próprio diretor reconheceria não compartilhar mais daquele mesmo otimismo, algo perceptível quando observamos a evolução de sua ficção científica.

Cinco anos depois, E.T. – O Extraterrestre transforma essa mesma lógica em algo muito mais íntimo. Se Contatos Imediatos olhava para o céu, E.T. volta os olhos para dentro de casa. O alienígena não chega como um conquistador ou uma ameaça, mas como uma presença capaz de reorganizar afetos. Elliott vive em uma família fragmentada pela ausência do pai, e a conexão com E.T. acaba funcionando como um elo capaz de aproximar pessoas que já não conseguiam se comunicar plenamente entre si.

Mais uma vez, o extraterrestre importa menos do que os humanos ao seu redor. Spielberg utiliza o fantástico para discutir abandono, pertencimento e amadurecimento. O contato com o desconhecido se torna uma ferramenta para compreender melhor aquilo que existe dentro da própria casa.

Esse otimismo começaria a se transformar conforme os Estados Unidos também mudavam. O final do século XX e o início do XXI trouxeram novos debates sobre tecnologia, vigilância e poder institucional. Spielberg acompanha essa mudança sem abandonar suas preocupações centrais. Em A.I. Inteligência Artificial, um robô programado para amar passa a habitar um mundo incapaz de corresponder a esse sentimento. Em Minority Report, uma tecnologia criada para impedir crimes futuros abre espaço para reflexões sobre livre-arbítrio, controle e monitoramento constante da população.

A pergunta deixa de ser “o que existe lá fora?” e passa a ser “o que estamos fazendo com aquilo que criamos?”.

Ainda existe fascínio pela tecnologia, mas ele passa a conviver com a desconfiança. O futuro já não é apenas promessa. Também é ameaça.

Essa transformação encontra seu ponto mais radical em Guerra dos Mundos (2005). Durante décadas, Spielberg associou seus visitantes extraterrestres à descoberta e à comunicação. Aqui, eles surgem como uma força incompreensível e destrutiva. Não há troca de conhecimento, não há curiosidade mútua e tampouco qualquer possibilidade de convivência.

Lançado poucos anos após os atentados de 11 de setembro, o filme absorve medos que marcaram profundamente o início do século XXI. As imagens de multidões correndo pelas ruas, pessoas cobertas por poeira e instituições incapazes de responder rapidamente ao desastre remetem diretamente ao trauma coletivo vivido pelos Estados Unidos. Spielberg continua olhando para o desconhecido, mas agora ele parece menos interessado na maravilha da descoberta e mais preocupado com a fragilidade das estruturas humanas diante do caos.

Ainda assim, permanece fiel às suas obsessões. Em meio ao colapso global, o centro da história continua sendo um pai tentando reconstruir a relação com seus filhos.

É justamente por isso que Dia D soa tão fascinante dentro desse percurso. O filme retoma temas presentes desde Contatos Imediatos: ufologia, segredos governamentais, fenômenos inexplicáveis e a possibilidade de uma verdade escondida da humanidade. Mas algo mudou profundamente.

Em 1977, Spielberg parecia fascinado pela possibilidade do contato.

Em 2026, ele parece interessado nas consequências da revelação.

O mistério já não está apenas na existência do fenômeno, mas em quem controla a informação sobre ele. A pergunta central deixa de ser quem está lá fora e passa a ser quem decide aquilo que podemos saber sobre quem está lá fora. É uma mudança que dialoga diretamente com um mundo marcado por disputas narrativas, circulação instantânea de informações e crescente desconfiança em relação às instituições.

Ao observar essa trajetória, fica difícil não perceber como Spielberg utilizou a ficção científica para acompanhar transformações profundas da sociedade americana. Seus filmes falam sobre extraterrestres, mas também sobre Watergate. Falam sobre robôs, mas também sobre a desumanização das relações contemporâneas. Falam sobre invasões alienígenas, mas também sobre os traumas do pós-11 de Setembro.

Talvez essa seja sua maior contribuição para o gênero.

Décadas depois, cineastas como Jordan Peele continuariam explorando caminhos semelhantes. Em Não, Não Olhe!, o diretor utiliza um OVNI para discutir espetáculo, exploração midiática e a obsessão humana pela imagem perfeita. O fenômeno permanece fascinante, mas o verdadeiro objeto de estudo continua sendo quem o observa. Se Roy Neary abandonava tudo para compreender aquilo que viu nos céus em Contatos Imediatos, os irmãos Haywood arriscam a própria vida para registrar e comercializar essa experiência. O desconhecido permanece o mesmo. A sociedade que o observa é que mudou.

Existe uma aparente contradição atravessando toda a obra de Spielberg. Seus filmes frequentemente colocam os Estados Unidos em crise, revelam falhas institucionais e desmontam a imagem idealizada da família americana. Ao mesmo tempo, raramente abandonam a esperança. Talvez porque seu cinema nunca tenha sido movido pelo cinismo. Spielberg parece profundamente fascinado pela ideia de América, mas igualmente consciente de suas contradições. Seus personagens vivem em um país imperfeito, muitas vezes incapaz de cumprir as promessas que faz a si mesmo, mas continuam acreditando que existe algum caminho possível adiante.

Ao longo de quase 60 anos, Steven Spielberg observou alienígenas, robôs, tecnologias impossíveis e futuros imaginários. Fez isso não para explicar o universo, mas para compreender as pessoas que habitam um pequeno planeta dentro dele. Seus extraterrestres vieram do espaço, mas as perguntas que fazia sempre estiveram enraizadas na Terra.

Talvez por isso sua ficção científica continue tão relevante. Porque, no fim das contas, o verdadeiro mistério para Spielberg nunca foi aquilo que existe além das estrelas.

Foi a humanidade tentando entender o que fazer quando olha para elas.