Caio Pimenta analisa como Daniel Day-Lewis pode chegar ao Oscar 2026 com “Anemone” mirando a quarta estatueta de Melhor Ator.

HISTÓRICO DE DAY-LEWIS NO OSCAR

O Daniel Day-Lewis é uma lenda do cinema mundial, altamente prestigiado pela crítica, público e indústria. E a história dele no Oscar prova isso.  

O britânico possui seis indicações ao Oscar em três décadas diferentes. Logo de cara, Day-Lewis venceu com “Meu Pé Esquerdo”, uma atuação de entrega física absoluta em que chegou a quebrar costelas durante as gravações. Na ocasião, superou Tom Cruise vindo forte com “Nascido em 4 de Julho” e Morgan Freeman do ganhador da edição de 1990 com “Conduzindo Miss Daisy”. 

Quatro anos depois apareceu nome em Melhor Ator com “Em Nome do Pai”. A temporada que ainda trazia Liam Neeson com “A Lista de Schindler” e Anthony Hopkins por “Vestígios do Dia” foi dominada pelo Tom Hanks de “Filadélfia”. 

 

Em 2003, novamente em Melhor Ator, o Daniel Day-Lewis esteve próximo da vitória: interpretando Bill ‘The Butcher’, ele passou por cima do Leonardo DiCaprio em “Gangues de Nova York” a ponto de assumir a dianteira para a categoria. Nos prêmios anteriores ao Oscar, o britânico venceu o Bafta e o SAG, mas, na festa da Academia, sofreu com a derrocada do longa do Martin Scorsese. Com isso, foi derrotado pelo Adrien Brody, de “O Pianista”. 

A segunda estatueta, porém, não demorou: em 2008, Day-Lewis não deu míseras chances para os adversários e dominou de forma absoluta Melhor Ator com “Sangue Negro”. E não tinha como ser diferente: Daniel Plainview é, sem dúvida, a maior atuação da carreira do britânico e uma das melhores a ter vencido a categoria na história do Oscar. 

 

Cinco anos depois, Day-Lewis novamente foi dominante em Melhor Ator: o astro conquistou a terceira estatueta da categoria com “Lincoln”, primeiro e até agora único filme ao lado de Steven Spielberg.   

Diferente de quando ganhou por “Sangue Negro”, em 2013, eu vejo alguém com uma atuação melhor do que a dele na temporada: era o trabalho brilhante de Joaquin Phoenix, por “O Mestre”.

Ali, infelizmente, “O Mestre” não chegou tão forte – ficou fora de Melhor Filme, por exemplo -, fora que Daniel Day-Lewis interpretando Abraham Lincoln era impossível de não ser premiado. 

 

Já em 2018, o Daniel Day-Lewis conseguiu uma justíssima indicação pelo excelente “Trama Fantasma”, segunda parceria dele com o Paul Thomas Anderson.

Chegou sem maiores chances com todo o favoritismo do conterrâneo dele Gary Oldman, o qual venceu Melhor Ator no mesmo modelo de “Lincoln” ao interpretar Winston Churchill em “O Destino de uma Nação”. 

 

Seis indicações para um ator que não realiza um filme atrás do outro praticamente não deixa brechas para tantas esnobadas assim. Elas, porém, aconteceram sim. 

“O Último dos Moicanos” e “O Lutador” foram as duas maiores esnobadas da carreira do astro. O longa do Michael Mann decepcionou no Oscar 1993 conseguindo apenas uma indicação com Melhor Som. Nem mesmo toda a imersão de Day-Lewis na preparação ao morar em regiões de floresta caçando e pescando igual ao personagem sensibilizaram a Academia. 

Já “O Lutador” era mais um trabalho do ator com o diretor Jim Sheridan, de “Meu Pé Esquerdo” e “Em Nome do Pai”. O drama, entretanto, não saiu do lugar e ficou esquecido na temporada dominada pelo Jack Nicholson de “Melhor é Impossível”. 

Falando na lenda, Jack Nicholson é junto com o Day-Lewis e o Walter Brennan os únicos atores a terem três Oscars. O detalhe é que o britânico venceu todas as estatuetas em Melhor Ator, enquanto o Nicholson ganhou dois na categoria principal (“Um Estranho no Ninho” e “Melhor é Impossível”) e um de coadjuvante (“Laços de Ternura”) e o Brennan todos em coadjuvante. 

CHANCES NO OSCAR 2026

Isso demonstra o tamanho do Daniel Day-Lewis perante a indústria. Uma quarta estatueta o colocaria em um status ao lado apenas de Katharine Hepburn como os atores mais premiados da história do Oscar. A missão para proporcionar isso cabe a “Anemone”. 

Primeiro trabalho em oito anos, o drama dirigido por Ronan Day-Lewis, filho do ator, traz o astro interpretando um ex-soldado irlandês vivendo ao lado do irmão em uma casa de distante. Assombrado pelo passado, ele entra em um estado de paranoia, enquanto encara todos os seus demônios. 

Pelo trailer, “Anemone” traz um Daniel Day-Lewis assustadoramente sombrio, o que remete ao trabalho de “Sangue Negro”. O drama flerta com o terror – até lembrei de “O Farol” com dois personagens isolados -, porém, mais contido e menos sanguinolento.  

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

O interessante é que não apenas na atuação que o Daniel estará em “Anemone”: ele também o roteirista do projeto ao lado do Roman. Aqui, mirando o Oscar da categoria, o projeto terá desafiantes pesados. 

Duas vagas, pelo menos, já contam com donos: “Pecadores” e “Valor Sentimental” estão praticamente garantidos.

Se “Depois da Caçada” confirmar as expectativas, a tendência é que seja indicado. “Marty Supreme”, “Rental Family”, “Sorry, Baby“, “It Was Just An Accident” e “Jay Kelly” vão duelar pesado pelas duas vagas restantes. 

Resumindo: difícil imaginar o Daniel Day-Lewis indicado pela primeira vez como roteirista.

Já em Melhor Ator, aí as chances são maiores muito pelo prestígio do astro. 

O britânico sempre será levado em consideração na categoria independente do que vinha a fazer. Sites como Next Best Picture e Variety já o colocam próximo da indicação. Um ponto a favor do astro de “Anemone” é que ele possa representar a experiência dentro de uma lista que poderá contar com atores muito jovens como Timothée Chalamet, Jeremy Allen White, Michael B. Jordan ou de marinheiros de primeira viagem no Oscar como Wagner Moura e Dwayne Johnson. 

Claro que há nomes com rodagem no Oscar que podem aparecer como Brendan Fraser em “Família de Aluguel”, Leonardo DiCaprio por “Uma Batalha Após a Outra” e George Clooney de “Jay Kelly”. Ainda assim, Day-Lewis me parece um patamar acima em prestígio dos demais, fora que há sempre aquele pensamento de que pode ser a última oportunidade de votar nele, afinal, ele não confirmou se “Anemone” será a despedida ou não das telas. 

Por outro lado, a própria trajetória pode pesar contra ele. Não duvido que muita gente considere que o Daniel Day-Lewis tem indicações e estatuetas suficientes, logo, não precisa aparecer pela sétima vez e ganhar pela quarta no Oscar. Nesta lógica, o mais interessante seria abrir espaço para novos nomes com o Wagner Moura estando ali no bolo. Isso, entretanto, pode cair por terra se a atuação for mais uma vez espetacular. 

MELHOR FILME

Hoje o maior desafio de “Anemone” será conseguir espaço dentro da Focus Features. 

O estúdio chega com candidatos pesos-pesados para a temporada. “Hamnet”, novo filme da Chloe Zhao, é uma das grandes apostas do Oscar 2026. Tudo depende da passagem pelo Festival de Veneza onde concorre ao Leão de Ouro. Por lá, “Bugonia” saiu bastante elogiado pela imprensa que destacou Emma Stone e Jesse Plemons, um adversário interno do Day-Lewis mirando Melhor Ator. Correndo por fora, ainda tem “Song Song Blue” com o Hugh Jackman de protagonista.  

A força de “Anemone” começa a ser colocada em jogo com a estreia no Festival de Nova York entre setembro e outubro. Considero que o Daniel Day-Lewis tem credenciais fortes para chegar a Melhor Ator, porém, até o momento, não o vejo se metendo no duelo que deve ficar entre o Timothée Chalamet e o Jeremy Allen White.