Há quase um ano, o canal do youtube ‘Sociocrônica’ publicou um vídeo discutindo o teor homossexual implícito em ‘Gilda’. Concebido durante a vigência do Código Hays (conjunto de normas de autocensura imposto pelos próprios estúdios de Hollywood), mascarar o verdadeiro teor da trama era a solução para levá-la ao cinema. A personagem-título até indaga em determinado momento: ‘A quem pensa que está enganando, Johnny?’. Aliás, papel título esse que deveria ser do mencionado Johnny. Gilda nem sequer é o centro desta história. 

Dirigido por Charles Vidor, ‘Gilda’ conta a história de Johnny Farrell, que depois de ser surpreendido trapaceando em um jogo, consegue se tornar o braço direito de Ballin Mundson, um poderoso dono de cassino. Quando Mundson apresenta a Farrell sua esposa, Gilda, ele descobre que os dois têm um passado em comum. Percebeu como ela não é o cerne da história?

Uma cena em específico explicita esse sentimento: em uma discussão entre as três peças do filme, Hayworth e Macready são postos à penumbra, enquanto somente a figura de Glenn Ford pode ser vista integralmente na tela. Johnny Farrell é o verdadeiro protagonista.

Gilda aqui não serve como uma espécie de ‘Laura’ (Otto Preminger, 1944), mas sim como uma versão viva de ‘Rebecca’ (Alfred Hitchcock, 1940). A primeira aparição dela acontece aos quase 20 minutos de projeção. A personagem de Rita Hayworth é inserida na história somente com o objetivo de azedar a relação entre Ballin e seu protegido Johnny. Ela teoricamente tem o mesmo background de Johnny, aparentemente tiveram uma relação antes de chegarem à Argentina e ambos nasceram no dia que conheceram Ballin, mas só vemos acontecer com a personagem de Ford. Gilda não importa. 

O curioso é que o filme só existe pela figura de Rita Hayworth: foi produzido sob medida para diversificar o currículo da pin-up do momento, que já estava farta de musicais e romances menores. Virginia Van Upp ficou a cargo de supervisionar a obra, enquanto trouxe outras três escritoras para roteirizar, um feito e tanto para a Hollywood da época. É um filme noir em essência, mas ele faz muito mais sentido se enxergar apenas como uma paródia do que deveria ser um filme noir.

‘Gilda’ teve uma produção turbulenta e isso é visível no resultado final. O filme não faz muito sentido. Em um primeiro momento achamos que estamos assistindo a um triângulo amoroso a la ‘Casablanca’ (1942), mas então tem uma disputa por metais preciosos, e aí entra uma trama nazista e estamos de volta aos conflitos amorosos. Tudo muito jogado. Nada realmente empolgante. E o pior: Glenn Ford é apático e Hayworth é bela, carismática e impõe presença, mas não tem carga dramática. Talvez por isso o momento mais memorável e que perpetua até os dias de hoje, seja o striptease de uma luva – afinal, era o que podia no momento. 

O que realmente chama atenção é o visual. ‘Gilda’ é um filme muito bonito, ao menos com esmero na parte técnica. O jogo de luz e sombra – característicos do noir – é bem-composto e proporciona um ambiente de tensão que o roteiro tenta apenas acompanhar. Rodado inteiramente em estúdio, os cenários são grandiosos, se afastando do estigma de ‘filme B’ que o gênero possuía. As qualidades do filme, em termos técnicos, se sobrepõem a uma trama pouco original e confusa. 

Às vezes, alguns filmes são apenas veículos para algo maior. Rita Hayworth é esse algo maior, ainda que o roteiro não a enxergue dessa forma. Um roteiro também pode abrigar diversos significados e interpretações, ainda que seu subtexto gay seja preterido por uma paródia mafiosa de ‘Casablanca’. No final, ‘Gilda’ não é um filme ruim, mas um pastiche de situações que, com sorte, resultaram num filme clássico. Ponham a culpa em Mame, rapazes.

VÍDEO DO SOCIOCRÔNICA