Quarteto Fantástico – Primeiros Passos, dirigido por Matt Shakman, pode até compartilhar algumas ideias com Superman de James Gunn — ambos tratam de temáticas do contemporâneo e constroem situações que buscam a humanidade dos seus personagens —, mas a semelhança termina aí. O filme de Gunn é sobre James Gunn, como autor, e seus próprios gostos: referências, estilos, trilhas sonoras, humor autorreferente, callbacks. Já o de Shakman, para o bem ou para o mal, é um exercício de estilização cinematográfica. Ele parte do trabalho anterior em WandaVision e procura um cinema mais plástico, menos televisivo, apostando em composições visuais que dialogam com as intenções narrativas. Existe um desejo de fazer cinema de super-herói com mais controle de tom e mise-en-scène – e isso aparece.

Ao contrário das versões anteriores do grupo — já são três —, aqui os personagens surgem inseridos em um mundo que os reconhece. A cidade os respeita, os admira, os nomeia como heróis. Isso aproxima Quarteto Fantástico – Primeiros Passos de um certo espírito dos quadrinhos, onde, mesmo em meio ao caos ordinário, a população encontra nos superpoderosos uma projeção de esperança. E isso não é apenas um detalhe simpático; é uma escolha importante de estrutura: Shakman não perde tempo com uma longa história de origem. O espectador entra direto no jogo com todas as peças na mesa. E com isso, o filme propõe algo que nem sempre os blockbusters se permitem: lidar com consequências.

Essa recepção calorosa do público é rapidamente colocada à prova quando os conflitos internos dos personagens começam a se evidenciar. A figura do herói, inabalável e incontestável, é tensionada pela exposição da intimidade, das falhas e da vulnerabilidade. Uma escolha que ecoa algo já ensaiado em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, mas que lá não reverbera em nada concreto na narrativa. Em Quarteto Fantástico – Primeiros Passos, por outro lado, há resposta: o coletivo deixa de ser um pano de fundo para se tornar o centro da discussão. Se é para proteger a Terra, que sejam os próprios terráqueos, com suas diferenças e contradições, a fazer isso juntos. O herói individual cede espaço para o grupo. E nesse ponto, o filme acerta com firmeza.

Não consegui evitar a equiparação, enquanto assistia, com Os Incríveis (2004), de Brad Bird. Existe algo de semelhante na forma como os dois filmes desmontam a roupagem dos super-heróis dos anos 2005-2007, criando universos mais oníricos, exagerados, quase fantásticos demais para serem reais — mas que, ao mesmo tempo, são absolutamente críveis porque abraçam seu próprio microcosmo com convicção. O design retrô-futurista, os cortes de montagem e a introdução do filme são claros exemplos disso. Essa abertura, inclusive, funciona como um bom resumo para os passageiros de primeira viagem na história do Quarteto, mas pode parecer apressada demais para quem esperava um desenvolvimento dramático mais marcado. Não é exatamente um erro, mas escancara uma limitação: a de que, por vezes, Shakman parece mais confortável com a comunicação do plano do que com sua capacidade de gerar sentimento.

Isso fica evidente em como ele usa bem o espaço, a composição, a mise-en-scène — mas não necessariamente extrai emoção disso. A exceção, e talvez o ponto mais alto de Quarteto Fantástico – Primeiros Passos, vem de Vanessa Kirby: ela entrega uma atuação comovente em uma sequência específica de parto que concentra todos os elementos dramáticos do filme em uma só cena. O enquadramento, o uso dos efeitos práticos, o som e a reação dos outros personagens se alinham para criar uma tensão legítima. E ali, Shakman alcança algo que poucos filmes da Marvel conseguiram nos últimos anos: fazer o espectador se importar de verdade.

Shakman também resgata uma ideia de ficção científica como linguagem, e não apenas como ambientação. Há algo de retrô nos figurinos, nos cenários e até no modo como o tempo se comporta. A tecnologia — portais, dispositivos, realidades alternativas — não é gratuita, nem usada só para o espetáculo, mas como espelho da relação dos personagens com o mundo. Tudo aponta para uma certa utopia ferida, uma esperança que ainda pulsa, mesmo que enfraquecida. E essa tentativa de manter algo aceso, mesmo quando tudo parece perdido, é o que talvez resuma melhor o espírito do filme.

No fim, Quarteto Fantástico – Primeiros Passos não é sobre salvar o mundo no sentido clássico. É sobre encontrar maneiras de permanecer juntos quando o mundo já parece perdido. E se os blockbusters da Marvel estão há tempos numa crise de identidade, talvez esse filme, mais contido e concentrado, seja um primeiro passo para relembrar que cinema de herói também pode ser sobre escolha, sobre corpo, sobre afeto — e não apenas sobre universo compartilhado.