AVISO: Spoilers leves no texto a seguir.

—

Em 2020, por causa da pandemia, não tivemos nenhum novo lançamento do Marvel Studios. Nenhumzinho. Fãs em todo o mundo, em busca de fantasia e de um pouco de escapismo para ajudar a encarar um mundo assolado por problemas e um vírus, tiveram de se contentar em rever os filmes e os momentos icônicos que eles contêm, e que transformaram o estúdio na maior força da cultura pop mundial. Eu, de minha parte, senti falta.

E eis que em 2021, a Marvel lança no mundo a minissérie WandaVision no streaming do Disney +. WandaVision é justamente sobre isso: sobre sentir falta de algo, sobe querer fugir da realidade e buscar conforto no que é familiar, no que está próximo, na própria cultura pop. É a obra mais “meta” da Marvel em toda a sua trajetória, um filme Marvel dividido em nove episódios que comentam sobre a própria mídia da TV e fazem referência a filmes de cinema, dentro de um serviço de streaming, e com um núcleo emocional bem claro e firme. Quem mais, na Hollywood de hoje, conseguiria fazer funcionar essa mistureba metalinguística além da Marvel?

A série começa já de forma até meio ousada, emulando o estilo de uma sitcom dos anos 1950, do tipo que os bisavós e avós de grande parcela dos assinantes do Disney + devem reconhecer. Numa cidadezinha pequena, e em preto-e-branco, vemos as peripécias domésticas do casal Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e seu marido “sintozóide” Visão (Paul Bettany). Com direito até a claque de risadas. Sempre por perto, está a vizinha ultra-prestativa Agnes (Kathryn Hahn). Porém, já sabemos de cara que algo está errado, pois… O Visão não deveria estar morto? A série não se passa após os eventos de Vingadores: Ultimato (2019)? O mistério – que, aliás, é bem fácil de adivinhar, ainda mais para quem conhece a trajetória recente da Wanda nas HQs – se revela ao espectador ao longo dos episódios.

HOMENAGENS E BOAS NOVIDADES

E os episódios são… esquisitinhos. E divertidos. A cada novo segmento, avançamos uma década no estilo de sitcom, e seriados como The Dick Van Dyke Show, A Feiticeira, Jeannie é um Gênio, Full House, Malcolm in the Middle, são todos referenciados e servem de base para a estranha realidade da série. Há também desvios narrativos para a realidade do Universo Marvel, com os personagens da organização E.S.P.A.D.A tentando descobrir o que está se passando na cidadezinha onde Wanda e o Visão estão. Coadjuvantes de filmes anteriores da Marvel aparecem.

Até uma figura importante do passado de Wanda retorna, mas interpretado não pelo ator que o viveu nos filmes dos Vingadores, mas pelo que o interpretou na franquia dos X-Men do estúdio Fox! E no final, a série começa a se transformar numa história de super-herói mais tradicional, com direito a vilões e confrontos cheios de efeitos visuais.

O maior feito do diretor Matt Shakman e do criador e produtor-executivo Jac Schaeffer é fazer tudo isso funcionar. No programa, os roteiros e a direção dão conta de manipular e fazer coexistir vários tons e gêneros: comédia exagerada, comédia mais sutil, fantasia, drama, ação com super-heróis. E o fazem de maneira inteligente: Os figurinos e a direção de arte recriam com perfeição o visual e o espírito dos programas de TV nos quais WandaVision se inspira. E sempre sabemos em que “realidade” estamos, por causa dos diferentes formatos de tela utilizados, de maneira muito esperta, na cinematografia da minissérie.

FILME MARVEL ESTICADO

Tudo isso contribui para o clima especial de WandaVision, que parece estar quase sempre dando umas piscadelas para o espectador. A minissérie nem faz questão de paparicar possíveis recém-chegados ao Universo Marvel: ela é feita mesmo para os iniciados, para quem viu todos os filmes e está acompanhando os recentes desdobramentos do MCU. Só que agora num formato diferente, um pouco mais expansivo e consideravelmente mais experimental, pelo menos, durante os primeiros episódios.

Quanto mais a minissérie avança, mais fica claro que estamos vendo um filme Marvel esticado, e elementos mais tradicionais dos filmes começam a aparecer. Porém, são nesses últimos episódios que os astros da série, Olsen e Bettany, realizam os seus melhores trabalhos em toda a sua longa história com esses personagens. Olsen, em particular, demonstra por toda a série um hábil domínio das sutilezas da Wanda, nos fazendo intuir seus estados interiores com um trabalho preciso, muito consistente e admirável. Além dela, Hahn se torna a outra figura de destaque de WandaVision, divertindo-se a valer com a sua personagem e marcando presença como uma nova figura marcante no universo Marvel.

ENTRETENIMENTO PERFEITO DOS TEMPOS ATUAIS

WandaVision só peca mesmo pela sensação ocasional de que estamos vendo uma quantidade de episódios maior do que a história pedia – um “efeito Netflix”, mas em grau muito menor, ainda bem – e pela resolução, que talvez seja mais convencional do que deveria ser. Mas esses problemas são pequenos em comparação com a diversão da série, e as suas qualidades. Ora, pode-se dizer que a Marvel – de maneira não proposital, claro – acabou criando com WandaVision o entretenimento perfeito para os nossos tempos. No fundo, apesar de tudo, é a história de alguém que fugiu da realidade, para dentro das fantasias de que mais gosta. E quem não se sentiu assim nesses últimos tempos? Quem não buscou o escapismo dos seus filmes, seriados e programas de TV favoritos para esquecer o medo, a tristeza e o luto desses últimos meses, desse último ano? Isso é algo muito humano, e é o que alimenta essa história maluca e que remete ao escapismo a que somos expostos desde a nossa infância.

De fato, a minissérie demonstra a verdadeira magia da Marvel e porque ela é uma força sem par no mundo do entretenimento moderno: Seus personagens podem até não serem lá muito profundos, mas parecem humanos e vivem dilemas com os quais podemos nos relacionar. Enquanto o estúdio mantiver isso em mente, sua mágica seguirá imbatível.

‘Carrie, a Estranha’: Mike Flanagan transforma a fúria adolescente na era digital

“Carrie” se constrói entre erros e acertos; Flanagan consegue atualizar a trama e repaginá-la, mas para isso sacrifica algumas tramas.

‘Habeas Corpus’: drama jurídico perdido em conveniências

Habeas Corpus funciona melhor quando seus atores mais experientes conseguem emprestar complexidade a personagens que o roteiro nem sempre sabe desenvolver.

‘Lanternas’ Episódio 2: série cresce ao deixar de lado o mistério do ‘quem matou’

Basta apostar na divertida investigação da morte dos alienígenas e ir trazendo os personagens clássicos do Lanterna Verde que estará em ótimo caminho.

‘Lanternas’ – Episódio 1: o que está acontecendo com a HBO?

Não bastasse 60 minutos para lá de mornos, Lanternas apresenta o gancho mais batido para fisgar o público: saber quem matou tal personagem.

‘Cabo do Medo’ (2026): o monstro por trás de Max Cady cria versão de alto nível

Cabo do Medo entende que atualizar uma história não é simplesmente trocar uma época por outra, mas observar o que mudou naquilo que chamamos de família, justiça e proteção.

‘O Senhor das Moscas’: excessos tiram brilho da essência da série

Adaptação do clássico livro de William Golding, feita pelo mesmo produtor de Adolescência, é esvaziada pelo excesso de afetação.

‘O Urso’ – 5ª Temporada: despedida aponta sinais claros de desgaste da série

Poucas séries recentes foram tão avassaladoras quanto O Urso. Desde sua estreia, a criação de Christopher Storer encontrou na cozinha não apenas um cenário para suas histórias, mas uma extensão da mente de seus personagens. Os pratos voltando para serem refeitos, os...

‘Eu Vou Te Encontrar’: suspense da Netflix seria bem-vindo no Supercine

Minissérie da Netflix com a marca registrada do autor Harlan Coben parece um Supercine esticado por oito episódios.

‘O Segredo de Widow’s Bay’: uma cidade tão fascinante quanto seus segredos

O Segredo de Widow’s Bay demonstra compreender que histórias sobrevivem justamente porque nunca são completamente resolvidas.

‘Spider Noir’: Homem-Aranha à altura dos filmes de Sam Raimi

Por trás dos mistérios e dos tiroteios, Spider Noir entende algo que muitas adaptações do personagem parecem ter esquecido.