Você sabe quem é William Wyler? Apesar do nome sugerir tratar-se de algum político ou pregador religioso da história americana, Wyler foi um dos cineastas mais prestigiados da “Era de Ouro” de Hollywood. Dono de uma carreira eclética — dirigiu praticamente de tudo no cinema —, William ficou conhecido pelo perfeccionismo de sua mise en scène, pela sua capacidade de entender plenamente diferentes gêneros de filmes e pelo amor em explorar a alta profundidade de campo (as fotografias de seus filmes são sempre deslumbrantes) em obras marcadas por temáticas fortes.
Seu pulso firme na direção sempre privilegiou as atuações, no âmbito das quais fez grandes parcerias, como é o caso das musas Bette Davis e Audrey Hepburn. Ficou também conhecido pela extrema facilidade de fazer com que seus astros ganhassem prêmios (ao todo, 14 faturaram o Oscar), sem contar que ele próprio está na lista de recordistas, na qual de doze indicações, faturou 3 Oscars de direção.
Aproveitando que o épico Ben-Hur está de volta aos cinemas, vamos redescobrir o valor inestimável da filmografia de Wyler, um dos diretores mais subestimados (e esquecidos) que comandaram a Hollywood dourada por três décadas. É possível que você se lembre de seus filmes sem saber que são dele. Seguem meus favoritos.
10. Jezebel (1938)
Iniciando a lista, considero Jezebel um belo cartão de visitas para conhecer o cinema de Wyler. Apresenta
Julie Marsden (Bette Davis), que tem seu casamento cancelado com Preston Dillard (Henry Fonda) depois de usar um vestido vermelho, numa época em que as mulheres deviam utilizar branco. Ambientado em Nova Orleans de 1852, um pouco antes da Guerra Civil Americana, Wyler faz um conto moral e ético sobre o egocentrismo da aristocracia americana, ao apresentar o comportamento rebelde da protagonista. Wyler orquestra muito bem a redenção cristã (referência simbólica à personagem bíblica Jezebel) com direito a uma atuação icônica de Davis. Faturou o Oscar de Melhor Atriz (Davis) e Atriz Coadjuvante (Fay Bainter).
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9. Infâmia (1961)
Duas professoras amigas, Karen (Audrey Hepburn) e Martha (Shirley MacLaine) administram juntas um internato. Ao ser repreendida por uma mentira, uma estudante diz à avó que as duas têm um romance secreto, boato que se espalha pela cidade, mudando a vida das professoras. Em Infâmia, Wyler faz outro conto moral, desta vez sufocante, em que a tonalidade amarga combina com a fotografia melancólica. É a partir da sua narrativa que o cineasta retrata a repressão e o preconceito nos anos 60 em relação aos relacionamentos homoafetivos. Apesar de Hepburn estar bem, quem rouba a cena é MacLaine. O destino da sua personagem é uma das coisas mais bonitas já filmadas no cinema americano. Infâmia daria uma boa sessão com Beijo Amargo de Samuel Fuller e A Caça de Thomas Vinterberg.
8. A Princesa e o Plebeu (1953)
A Princesa e o Plebeu é a Cinderela às avessas de Wyler. A partir da história de uma princesa, Ann (Audrey Hepburn, atuação que lhe rendeu o Oscar de Atriz), que, depois de uma crise nervosa, decide viver como uma garota normal, mas acaba encontrando, pelo caminho, o jornalista interesseiro Joe (Gregory Peck), Wyler cria o chamado “romance mágico” pelas ruas de Roma, que se destaca pela simplicidade da sua história. Ele ainda consegue dosar comédia e romance em grande parte, para apresentar um final de cortar os corações dos enamorados e que deixa um sabor agridoce ao espectador. É uma belezura hipnótica a química entre Hepburn (definitivamente uma verdadeira princesa) e Peck em um dos filmes mais adoráveis do realizador.
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7. A Carta (1940)
Leslie Crosbie (Bette Davis), esposa de um comerciante, mata um homem e alega legítima defesa, mas omite que eles são amantes. É então que a viúva procura o seu advogado e passa a chantageá-la com uma carta. Em mais uma atuação demolidora de Davis (indicada outra vez ao Oscar de melhor atriz), A Carta revela o talento de Wyler em conduzir uma direção segura, dessa vez guiada por um suspense atmosférico refinado. É a prova de que, mesmo com uma premissa simples, ele é virtuoso em explorar a iminência dramática a partir de uma atitude implícita que, aos olhos do espectador, nunca é visível devido à ambiguidade dos atos. Se Hitchcock é o artesão do suspense misterioso, Wyler é o artesão do suspense das incertezas.
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6. Rosa da Esperança (1942)
Rosa da Esperança representa o diálogo mais explícito que Wyler fez com o cinema clássico americano. O diretor nunca escondeu que assumiu o filme para fazer uma propaganda patriótica sobre a Segunda Guerra Mundial. Ambientado na Inglaterra, a obra mostra Kay Miniver (Greer Garson) tendo que cuidar sozinha de sua família depois que o seu esposo Clem (Walter Pidgeon) é convocado para lutar contra os nazistas. Podemos até enxergar no filme certos defeitos — o texto é cheio de diálogos clichês sobre motivação e superação —, mas Wyler conduz tudo com um primor estético louvável — A sequência dos barcos indo para Dunquerque é impressionante — e trabalha muito bem as emoções dos personagens. Rosa da Esperança ganhou 6 Oscars, entre eles, melhor filme, direção e atriz.
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5. Da Terra Nascem os Homens (1958)
Ainda que, no mundo cinematográfico, muitos prefiram, entre os faroestes dirigidos por Wyler, O Galante Aventureiro, Da Terra Nascem os Homens é o que mora no meu coração. É o filme que me apresentou ao cinema do diretor e traz, nas entrelinhas de seu texto, uma das temáticas mais marcantes de sua cinebiografia: o caráter do homem a partir da honra e do orgulho pessoal. Gregory Peck está excelente como capitão da Marinha que se aposenta e vai ao Oeste para se casar com sua noiva (a linda Carroll Baker, musa do giallo italiano), filha de um rico fazendeiro, mas acaba gerando antipatia entre os rancheiros locais. Como um clássico do gênero, Da Terra Nascem os Homens conta ainda com sequências grandiosas no Red Rock Canyon, além de fotografia e trilha sonora exuberantes.
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4. Pérfida (1941)
Em Pérfida, Wyler faz outra bela parceria com Bette Davis, aqui no papel de uma matriarca ambiciosa que usa a filha para ascender na sociedade sulista elitizada dos EUA. Aqui, fica claro quanto o cineasta faz uma crônica sobre a ambição americana marcada pelo processo de industrialização. É nela que ele discorre sobre a ganância, o capitalismo que favorece poucos em detrimento de muitos e a hipocrisia e a exploração que moldam os pilares econômicos norte-americanos. Tudo isso com uma belíssima composição do espaço cênico e uma atuação de Davis saborosa como megera perversa de alta envergadura, confirmando o seu talento para papéis inescrupulosos.
3.Ben-Hur (1959)
Abrindo o pódio do diretor, Ben-Hur recebe a medalha de bronze. É o épico marcante que melhor define o cinema de Wyler com superlativos: grandioso, ambicioso, autêntico e inquietante. É, talvez, o ápice da época de ouro do cinema americano. O maior mérito do diretor é misturar história, religião, vingança, conflito e via-crucis. Destaque para a batalha naval, a corrida de bigas e o final épico do filme. Ben-Hur representa um suntuoso e magnífico espetáculo épico que não deixa o público indiferente. Cada um dos 11 Oscars vencidos é merecidíssimo.
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2. O Colecionador (1965)
Em segundo lugar, considero O Colecionador o filme mais instigante psicologicamente falando do cineasta. Terence Stamp faz Freddy, um colecionador de borboletas que nutre um amor obsessivo por uma jovem estudante (Samantha Eggar). Para criar um vínculo amoroso com ela, resolve sequestrá-la e a encarcerá-la no porão da sua casa isolada no campo, para tentar “convencê-la” a gostar dele. À medida que o filme se aprofunda no tema, Wyler domina por completo a sua narrativa ao criar um thriller psicológico intrigante e complexo dentro das minúcias sobre o distúrbio mental. Duas coisas continuam fortes na obra: o teatro filmado, repleto de diálogos ricos na composição das dinâmicas subjetivas do casal protagonista e o jogo afetivo-sexual de gato e rato entre eles. O Colecionador funciona ao evitar a armadilha clichê comum desse tipo de filme que é “romantizar” a doença mental ou distúrbio psicológico. Stamp está iluminadíssimo no papel.
1. Os Melhores Anos de Nossa Vida (1946)
É o melhor filme do homem; não é à toa que ganhou 7 Oscars, incluindo o de melhor filme e direção. A cada revisão que faço dele, à medida que a idade avança, ele fica mais emocionalmente forte. Em Os Melhores Anos de Nossa Vida, três militares têm a dura missão de voltar às suas vidas normais e tentarem se readaptar à sociedade depois de retornarem da Segunda Guerra Mundial. Diferentemente do patriotismo de Rosa da Esperança, Wyler desenha aqui um tocante e simples drama humano, sem cair em apelações, sendo agradável acompanhar os destinos dos personagens e as sutis conexões que os envolvem. Adoro como ele discute o desajuste social de soldados na sociedade americana da época e como extrai dos seus dilemas uma serenidade cativante para mostrar a aflição caminhando lado a lado do amor. Os Melhores Anos de Nossa Vida é aquele tipo de filme para renovar o espírito e acreditar na humanidade das pessoas.






















Assisti, não intencionalmente, 4×10. Tenho curiosidade de “o colecionador”, tenho o livro há anos e nunca consigo ler por conta de outras prioridades.