Cinebiografias de artistas da música hoje em dia são comuns, por isso é um refresco quando surge uma com uma proposta ao menos um pouco diferente. Springsteen: Salve-me do Desconhecido se diferencia ligeiramente do lugar-comum desse tipo de produção, principalmente por causa da sensibilidade e honestidade com a qual é narrada, e esses são os maiores méritos do longa do diretor Scott Cooper, autor de filmes como Coração Louco (2009), que rendeu o Oscar de ator para Jeff Bridges, e de parcerias com Christian Bale, que incluem o bom Tudo por Justiça (2014) e o melhor do cineasta até o momento, o faroeste Hostis (2017).
Baseado na autobiografia do cantor escrita por Warren Zane, este é um filme sobre uma encruzilhada na vida de um dos maiores artistas americanos: no começo dos anos 1980, Bruce Springsteen estava na crista da onda, prestes a explodir e se tornar o megastar da música que viria a ser. Era um cara amarrado a um foguete prestes a ser disparado para a estratosfera, mas tinha um peso amarrado aos seus pés. Ele volta à sua cidade natal, se isola, e compõe e grava no próprio quarto um conjunto de músicas que viria a se tornar o álbum “Nebraska”, de 1982. Mas o artista teve de lutar contra a gravadora, e também contra seus próprios demônios, para lançar seu disco intimista e triste do jeito que queria.
O filme de Cooper acerta sobretudo no elenco, que está muito bem: Jeremy Allen White encarna Springsteen, mesmo sem se parecer muito com o cantor. Sua composição é precisa, reproduzindo maneirismos e o sotaque, é uma atuação de técnica impecável. Mas acima de tudo, é o seu retrato da depressão do personagem que mais convence: a alma torturada do artista é expressa pelo ator, que nunca cai em caricatura. Embora, aqui e ali, ainda se notem alguns tiques do seu personagem na série The Bear, de modo geral a atuação de White é um trabalho bem sensível e delicado – assim como as músicas de “Nebraska”.
O trabalho dele encontra paralelo na atuação de Jeremy Strong como o empresário de Springsteen, Jon Landau. É a atuação mais humana do ator até hoje, e sentimos o tempo todo que ele se importa com o seu artista. Odessa Young também está ótima como Faye, a mãe solteira que é o interesse romântico do cantor durante o período em que compôs o álbum.
É um filme naquele estilo clássico de narrativa americana, sem grandes invencionices – no máximo um preto-e-branco para os flashbacks da infância do cantor, nos quais vemos como foi difícil o relacionamento dele com seu pai, vivido por um intenso Stephen Graham. Salve-me do Desconhecido quer ser um estudo de personagem e uma narrativa delicada, sem idealizar Springsteen, uma figura simplesmente adorada e respeitada no meio cultural americano – embora tenhamos a cena empolgante dele gravando seu sucesso “Born in the USA”. O filme, pela maior parte do tempo, alcança esses objetivos.
No entanto, para cada acerto, Salve-me do Desconhecido inclui um clichê bobo de cinebiografia musical, aquele tipo de cena que já vimos mil vezes antes. Em dado momento, Springsteen estaciona seu carro próximo a uma mansão isolada; na cena seguinte o vemos escrevendo a canção “Mansion on a Hill”. Noutro momento, o empresário diz à sua esposa que o cantor está “canalizando algo muito sombrio” para a sua música – cena que explica em voz alta o que o espectador já está vendo e sentindo. E no fim das contas, a resolução da crise de Springsteen é simplificada para o público.
Springsteen: Salve-me do Desconhecido funciona melhor nos pequenos momentos – que incluem o esforço técnico para reproduzir fielmente no disco o som que o artista gravou de forma crua – e no retrato que estabelece do problema emocional do seu protagonista. Ele termina antes de Bruce Springsteen virar de fato o “The Boss”, então o sucesso que o filme valoriza é mais emocional que artístico ou comercial, e isso é positivo.
E numa nota pessoal, fui ouvir “Nebraska” depois de assistir ao filme – nunca tinha ouvido esse disco. As músicas tristonhas sobre a vida mundana numa cidade fria americana ficam na mente e no coração, e de certa forma essa experiência até angaria um pouco mais de simpatia pelo filme, uma cinebiografia falha, mas honesta.
Se fizer mais gente ouvir a música de Springsteen, então está de bom tamanho.














