A série limitada The night of, vencedora dos Emmys de melhor ator principal para Riz Ahmed e direção para Stephen Zaillian em 2017, traz muita obscuridade, mistério e, ao mesmo tempo, clareia temas de forma bem objetiva.

Dentre eles, está o descaso e a violência pelas quais passam as mulheres (incluindo a vítima Andrea), os muçulmanos (o personagem Naz, diga-se de passagem, nasceu nos EUA) e as pessoas pretas. Andrea é tratada como uma “à toa” e inválida que aproveitou do falecimento da mãe para herdar sua casa. Não tem um trabalho, está endividada. Usa drogas e é descartada como se não tivesse valor. Nossa impressão é de que os dois homens que são chamados para depor, que encontram Naz e Andrea antes destes entrarem em casa, dá-se pelo fato somente de serem pretos e já terem ares de suspeitos pelo mesmo motivo.

O eczema psicológico

Chamou muito a nossa atenção o eczema do personagem John Stone, interpretado magnificamente por John Turturro. Por definição, o eczema é caracterizado por inflamações da pele com sintomas de coceira, vermelhidão e descamação. Como existem diferentes tipos que variam com o estágio da doença e os sintomas causais, pareceu-nos importante abordar o que seria o eczema psicológico. Sentimentos como culpa, nervosismo, ansiedade e “coceira da consciência” seriam alguns dos sintomas. No momento em que é determinado ao juiz deixar para John a declaração final, este que havia curado seu eczema com métodos pouco convencionais, tem por outro lado uma crise que o leva a um estado máximo de ansiedade evidenciando que tanto o eczema da pele quanto o psicológico estavam mascarados. Ali, para John, soma-se tudo: suas trapaças, chantagens, sua profissão, a difícil relação com o filho e com o próprio réu. Quando assume a fala, temos um show particular de Turturro, mais um a entrar no hall da fama dos injustiçados.

John, a princípio, é um oportunista que tenta ganhar dinheiro defendendo criminosos de caráter duvidoso, cujo os quais ele próprio afirma serem culpados e ganha seu pró-labore diminuindo a pena dos condenados através da estratégia de negociação. Durante toda a série vemos John sozinho, um dilema em ter como companheiro o gato da garota morta e que o traz uma incômoda alergia. Nossa hipótese é, ao escolher cuidar deste gato, John encontrou uma maneira de acolher outro ser também abandonado e excluído. As duras palavras ao final do último episódio da série citadas a seguir (sutilmente proferidas em um comercial da associação protetora dos animais) explicitam muito o que John e muitas outras pessoas sentem diante da sociedade na qual estão inseridos.

“Lindos animais sofrem todos os dias. Eles vivem na miséria, sem comida, sem abrigo e sem amor. São os animais esquecidos, animais que são agredidos e negligenciados, sofrendo sozinhos e vivendo com medo. Não se esqueça deles. Diga a esse animal que você o ajudará. É sua chance de resgatar animais do desespero, de salvá-los da dor, fornecer comida a eles…”

Este é um convite explícito a olharmos para nossos semelhantes em desvantagem social e ajuda-los. Afinal, de quais animais estamos falando? 

Alianças perigosas e necessárias

Dentro da prisão, Naz acaba aceitando a proteção do detento Freddy (Michael K. Williams). No início recusa, mas depois acaba ficando sem opção. Nas cenas em que se encontra preso, mais das que se encontra no tribunal, o telespectador pode conhecer e duvidar de quem Naz é realmente. Toma decisões que comprometem e ceifam a vida de outras pessoas e, por conseguinte, acaba se tornando um viciado em heroína.

Um ponto forte dessa série é o fato de deixar em aberto que matou Andrea. Naz nega o tempo inteiro que não cometeu o crime até o julgamento final, onde é pressioando pela promotora e acaba respondendo “não sei”, quando sente o peso da pergunta “você a matou”? Não vemos um caso de muita relevância em saber quem de fato é o assassino. Como dito anteriormente, The Night Of trata de outros temas mas delicados e complexos. A própria inocência de Naz é um deles. Ao longo dos oito episódios, vemos os desdobramentos da personalidade de Naz e nos deparamos com uma pessoa completamente diferente da que nos foi apresentada nos dois ou três primeiros episódios. Durante as investigações, acontecimentos peculiares da vida de Naz são trazidos à tona e estes nos fazem questionar seu caráter e sua índole durante a segunda metade da série.

A série escancara nossos pré-conceitos velados e como lidamos com os excluídos, os aparentemente “bons” e “corretos” e como às vezes o que se consegue é simplesmente julgar, abandonar ou deixar se levar pelas boas aparências. Andrea era usuária de drogas, se prostituía. Mereceu morrer aos olhos de quem julga. Naz é muçulmano, então automaticamente é rotulado como terrorista e outros muçulmanos começam a ser alvos de ataques do ódio alheio. Como um bom moço de família como Naz pode ter cometido um crime brutal daquele? No começo sentimos pena dele: um jovem aparentemente “normal”, de bons valores, tímido e de poucos amigos. Tomamos o lado dele sem nos questionar, até percebermos que ele não era bem o que parecia. Nosso pré-julgamento lentamente desaparece…

Tríade escolha-consequência-responsabilidade

Em The night of, responsabilizar-se é algo que se evita. A promotora por exemplo, recebe provas valiosas de que não era Naz quem havia cometido o crime. O detetive aposentado, não consegue ter paz em sua consciência. Desde quando devolve a Naz o inalador para sua asma, este dá sinais de que tem ainda muito a se descobrir. Por que, então, não conseguem tomar uma decisão concreta sobre o assunto?

Como não é o caso da série e nem o nosso aqui, no que diz respeito ao uso ou não de combinação de drogas, é sabido que elas podem trazer ansiedade, perda de peso, problemas no coração, tremores, hepatite, ou situações de emergência como crises de convulsão ou psicose. Podem gerar também infartos e acidente vascular cerebral devido ao uso excessivo e prolongado.

Contudo, Naz e Andrea escolhem fazer o jogo Five Finger Fillet ou Knife Finger Game. Escolhem beber várias doses de tequila combinadas com várias outras drogas, como cetamina, que de tão pesada é chamada apenas por “C” na maiorias das vezes em que é citada. A cetamina é uma droga usada na medicina e veterinária por suas propriedades sedativas, apesar de seus efeitos alucinógenos também a tornarem um composto perigoso quando consumida como substância recreativa.

Com isso, e os históricos de violência de Naz, é bem possível sim que ele mesmo a tenha matado e realmente não se lembre. A culpa e as escolhas começam onde? Quando Naz escolhe por vontade própria deixar que a jovem siga viagem dentro do táxi roubado do seu pai.

O que se desenrola depois, muda completamente a forma em que vemos e sentimos empatia pelos personagens principais. Tanto o advogado John Stone como Naz demonstram uma conduta de vida bem distinta da que vimos durante o início da série. Stone é o que se redime de alguma forma. Decide cuidar do gato, mesmo com a alergia que ele o traz. Vê a importância de cuidar. Naz acaba sendo inocentado por falta de provas concretas. Percebemos que o final “feliz” não é tão feliz assim. Marginalizado, cai no mundo obscuro do tráfico de drogas e sentimos um vazio profundo nele na cena final. Sentado à beira da “praia”, onde estava feliz com Andrea anteriormente, podemos observá-lo pensativo, perdido em um vazio que não vai ser mais preenchido…Ele está realmente livre?