Há sempre um quê de breguice nestes filmes de brutamontes de sandálias como “Gladiador 2”. Uma breguice que permeia as falas pomposas e pseudo-Shakespearianas, e que faz dos heróis completos canastrões. Uma breguice, enfim, tipicamente hollywoodiana, que coloca o irlandês Paul Mescal para liderar guerreiros de nações africanas.

O rabugento Ridley Scott responderia ao parágrafo acima com um “Quem se importa?”, e seu ponto-de-vista é compreensível. Esse tipo de escalação faz parte do jogo e, afinal, o Império Romano, era multi-étnico. Fora que, como qualquer um que tenha lido a sinopse do filme já sabe, Mescal é, na verdade, um romano, Lucius, filho de Maximus, o general-gladiador do primeiro filme. De modo que, pelo menos, esse problema já foi resolvido. Sobram todos os outros.

Não que a breguice generalizada seja ruim. Quando posta a serviço do som e da fúria, ela resulta em um espetáculo divertido. Impressiona, por exemplo, a batalha naval do início de “Gladiador 2” em que o justo general Justus (eu disse que o filme é brega) de Pedro Pascal enfrenta a nação rebelde liderada por Paul Mescal. De lá, Mescal se tornará escravo romano até ser comprado por Macrinus (Denzel Washington), que vislumbra um futuro para o rapaz como gladiador após uma luta contra babuínos sanguinários.

É nessas horas que “Gladiador 2” engata: não são apenas os tais babuínos que dão o ar da graça, mas também um rinoceronte e até mesmo tubarões tomam conta do Coliseu. Verdade seja dita, o CGI empregado para criar as feras se mostra irregular, mas o sangue que banha as areias da arena serve também para maquiar esses deslizes.

Até aí tudo bem. O problema é quando a tal breguice infecta de vez o roteiro. Por algum motivo, o roteirista David Franzoni acha uma boa ideia esconder o jogo até metade da trama quanto à identidade de Lucius, óbvia para qualquer um que tenha visto o trailer. Daí para o final a coisa desanda de vez, com o roteiro tentando encaixar as peças forçosamente para que o gladiador irlandês/africano/romano se torne símbolo insurgente na arena.

O pobre Paul Mescal se vê relegado à ingrata tarefa de fazer um discurso motivacional aos soldados a cada cinco minutos, como uma espécie de coach musculoso da Antiguidade. O resultado é exaustivo e insosso. Pedro Pascal se sai melhor, apesar de não ter muito o que fazer. Mas é que, desde “The Last of Us”, o ator vem se especializando num tipo de resignação de meia-idade que serve muito bem ao seu general romano, obrigado a servir aos imperadores Geta e Caracalla (Joseph Quinn e Fred Hechinger, respectivamente).

Os imperadores gêmeos, aliás, são a pior faceta de “Gladiador 2”, mas a culpa claramente se deve mais a Scott que a seus atores. A decisão de retratá-los como caricaturas queer sifilíticas resulta em personagens repetitivos e sem força. Claro que isso não importa diante do verdadeiro vilão do longa, o ardiloso Macrinus de Denzel Washington. Ele é o testemunho vivo do sonho romano, da máxima de que você pode começar de baixo e chegar ao topo nesta terra das oportunidades. A alegoria política sobre os EUA parece oportuna em tempos de reeleição de Trump, apesar de não ser especialmente produtiva.

O que importa é que Denzel faz o que sabe fazer de melhor, prolongando sílabas para saborear cada fonema das falas ridículas, segurando a toga esvoaçante enquanto desfila como um super-herói, disparando seu sorriso de um milhão de dólares na direção do Senado. Há uma cena em que ele gira uma cabeça decepada sobre uma bancada de pedra enquanto discursa que, definitivamente, precisa ser vista.

Mas talvez não no cinema. “Gladiador 2” oferece, sim, prazeres, mas é irregular demais para formar um todo marcante.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

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