Confesso que tenho certa dificuldade em escrever sobre um filme que me atravessa profundamente em temas sensíveis e que dialogam um pouco com a minha jornada. “Malu” é um desses filmes que me deixou em completa aflição. Uma aflição genuína e que me transportou para o submundo da minha mente revisitando alguns anseios que por aqui vigoram. Então, caro leitor, essa crítica vem de um lugar bastante particular e (i)maculado.
Ao longo do filme, seu nome, Malu, ressoava na cabeça. Quem é essa mulher caótica, excêntrica, carismática, poderosa e complexa? Ao meu ver, Malu é a personificação de uma mulher por si mesma, isto é, de se reinventar constantemente para continuar sobrevivendo.
E há muita dor envolvida. As complexidades das dores, dos traumas e suas consequências nas nossas ações não são histórias únicas e se manifestam de diversas maneiras. “Malu”, coloca três mulheres de uma mesma família envolvidas sob transtornos emocionais que as coloca nesse lugar compulsoriamente traumático e disfuncional.
Malu (Yara de Novaes) é uma atriz que já viu os louros da fama que o teatro lhe proporcionou, vive em uma relação de altos e baixos com a mãe idosa e conservadora Dona Lili (Juliana Carneiro da Cunha) e com o fiel amigo, Tibira (Átila Bee). A chegada da única filha, Joana (Carol Duarte) vai mexer mais ainda na sua rotina.
Esse seria mais um filme dramático comum se não fosse por um detalhe importante: Malu é livremente inspirado na vida da atriz Malu Rocha (1947-2013), mãe de Pedro Freire, que estreia muitíssimo bem na direção de longas-metragens desnudando a própria mãe e a si mesmo, já que a personagem Joana é um misto dele e da irmã, Isadora.
Malu é uma rebelde com causa. Uma atriz que viveu em plena Ditadura Militar e teve que forjar uma nova persona naquele período e nas décadas seguintes para viver daquilo que acreditava: a arte. A áurea caótica e idealista permeia a casa em construção em uma favela. Uma casa como se fosse uma extensão do corpo. Em contrapartida, temos a mãe, Dona Lili, e a filha, Joana, que de tão diferentes dela, tornam-se parecidas se comparados com os traumas e o ciclo vicioso dos abusos narcisísticos familiares.
Freire coloca essas mulheres no centro de uma eterna batalha de existência tão comum em muitos lares Brasil afora. Mas em nenhum momento as encaixa em rótulos como vilãs ou heroínas: não há maniqueísmo aqui, senão a dura realidade de relações tempestuosas tão pungentes que me deixou em estado de aflição. A violência dos diálogos e os closes fechados deixam muita angústia no ar.
Nesse sentido, o filme se engrandece com as performances. Yara de Novaes é um furacão que nos deixa desnorteados com sua potência cênica e avassaladora. Carol imprime vulnerabilidade e compaixão, enquanto Juliana e o seu olhar revela um outro lado humanizado de uma pessoa com atitudes nocivas. E Ataíde coloca leveza e poesia como um amigo que todos querem ter, genial.
Malu era uma mulher que sabia do seu corpo político e de como a arte está em favor da humanização de corpos dissidentes. Para não sucumbir ao sistema ela precisava de certo devaneio para poder se manter de pé, mesmo que isso pudesse ferir aquelas a quem mais amava.
Nesse sentido, penso que “Malu” fala de amor. O amor desmedido, não acertado e desajustado de avó, mãe e filha. O amor pela arte, pela rebeldia, pela conscientização de uma sociedade que reprime – Malu lutava contra isso. Um amor de um filho por sua mãe em colocá-la em primeira pessoa e imperfeita que precisou até o último instante reivindicar o direito de existência.
“Malu” foi selecionado no Festival de Sundance em 2024 e foi o grande vencedor do Festival do Rio 2024 levando os prêmios: Melhor Filme de Ficção (empate com “Baby” de Marcelo Caetano), Melhor Atriz (Yara de Novaes), Melhor Atriz Coadjuvante (empate entre Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha) e Melhor Roteiro para Pedro Freire.















