Uma vez ouvi que um dos ofícios mais solitários é o do escritor. Enquanto assistia “Amores Solitários”, filme de Susannah Grant disponível na Netflix, fiquei refletindo o quanto essa máxima se estende, em alguns casos, ao próprio ato de escrever como uma atividade que exige criatividade, consciência, originalidade, estranhamento e experimentação. Elementos os quais a diretora e roteirista mira para contar sua história de amor.

Somos levados a um retiro para escritores no Marrocos onde acompanhamos Katherine (Laura Dern), uma escritora de renome que está tendo dificuldades em escrever, e o casal Lilly (Diana Silvers) e Owen (Liam Hemsworth), uma jovem escritora que acaba de lançar o primeiro best-seller e seu companheiro. O destino faz com que os personagens de Dern e Hemsworth se aproximem à medida que a química entre ele e a namorada esfria. O resultado desse encontro, porém, é anêmico e causa aquela sensação de que tinha muito potencial, mas algo ficou pelo caminho. 

Grant escolhe um caminho que me chama atenção para mostrar o desenvolvimento do relacionamento entre uma mulher mais velha e um homem mais jovem. Ela deixa as interações entre eles orgânicas com diálogos e situações que fluem naturalmente como o florescer de um romance maduro, no qual cada um entra sabendo onde está pisando e quais perspectivas ter ou não dessa relação. Isso, para mim, é um acerto, considerando o quanto vários filmes que abordam narrativas semelhantes investem num tom lascivo, carente e, por vezes, tóxico.

“Amores Solitários” se distancia dessa premissa, mas tem dificuldade em fazer com que o público torça pelo casal ou se apaixone pela paixão deles. Parte disso se deve a falta de química entre Hemsworth e Laura Dern. Em vários momentos, tive a sensação de que estava acompanhando uma amizade se desenrolar e não um envolvimento mais íntimo, devido em grande parte a ausência de conflito entre eles, que não é causada nem tampouco pela diferença de idade. 

Há uma clara inversão de poderes na trama, no qual as mulheres ocupam um espaço centralizado, enquanto cabe ao personagem masculino se ajustar para encontrar o lugar dentro da cadeia estrutural. É neste processo que “Amores Solitários” justifica sua nomenclatura, uma vez que Owen precisa lidar com o sentimento de solidão, inabilidade e exclusão em face do sucesso e da popularidade de Lilly. Grant deixa exposto de maneira sutil a dificuldade que muitos homens possuem para lidar com o sucesso das companheiras, mas, ao mesmo tempo, é um tanto contraditório quando coloca a jovem autora como uma figura egoísta e imatura em comparação ao namorado. A impressão que fica é a de que ela age com uma postura masculina, priorizando a si e a profissão e isolando Owen por não conseguir encaixar-se no seu ecossistema. 

Em contrapartida, a atração do personagem de Hemsworth por Katherine está relacionada à entrega emocional que há entre eles. Duas figuras solitárias que encontram na companhia um do outro refúgio e prazer, o que explica o foco na construção da amizade entre eles e na compreensão sob a qual seu vínculo se arquiteta. Vale lembrar que a escritora sabe o que é estar no lugar de Lilly, como uma autora de sucesso em um relacionamento fadado ao término, mas isso não impede que a sua empatia esteja com Owen e não com a sua colega de profissão.

Para quem gosta de um romance mais maduro, linear e com poucas oscilações emocionais, “Amores Solitários” é uma oportunidade de mergulhar nesse tipo de narrativa e acompanhar como a diferença de idade não precisa ser um clichê ou a maior tensão dentro de um relacionamento. Além de te fazer querer ir para um retiro de escritores no Marrocos. Já estou à procura.