O Brasil tem tudo para voltar à disputa do Oscar após 26 anos: “Ainda Estou Aqui” é candidato mais do que forte para ficar entre os finalistas de Melhor Filme Internacional, repetindo os feitos de “O Pagador de Promessas”, “O Quatrilho”, “O Que é Isso Companheiro?” e “Central do Brasil”.  

A questão é saber se terá chances de ganhar ou se vai aparecer mais um bicho-papão parecido com “A Vida é Bela” para estragar a festa.  

Neste novo vídeo, eu dou um panorama do que esperar da categoria de Melhor Filme Internacional.

OS ESNOBADOS

As esnobadas do Oscar começam em Melhor Filme Internacional. Sempre rola de um determinado país fazer escolhas equivocadas, deixando de fora produções com grandes chances. Nesta temporada, a novela se repetiu. 

 A Índia protagonizou a maior polêmica: “All We Imagined as Light” tinha potencial para ficar sem maiores dificuldades entre os finalistas. A passagem pelo Festival de Cannes, onde foi o primeiro representante do país em décadas, foi bastante elogiada, emocionando o público. O longa da Payal Kapadia, entretanto, foi preterido por “Laapataa Ladies”, produzido pelo Jio Studios do bilionário Mukesh Ambani e com distribuição mundial da Netflix.  

Já a Palestina perdeu a oportunidade de indicar “No Other Land”, ganhador de Melhor Documentário no Festival de Berlim no voto popular da Mostra Panorama, e a Geórgia deixou de fora “April”, drama que disputou o Leão de Ouro em Veneza. 

 AMÉRICA DO SUL E DO NORTE

Partindo para os filmes escolhidos pelos seus respectivos países, vamos dar uma volta ao mundo para compreender os candidatos mais fortes de cada continente. 

Depois de emplacar “O Agente Duplo” e “A Memória Infinita” em Melhor Documentário, a Maite Alberdi estreia na ficção com “El lugar de la otra”. A produção mostra o caso real do julgamento da escritora María Carolina Geel. A distribuição da Netflix e o histórico de Alberdi na Academia colocam o Chile em posição interessante para brigar por uma vaga entre os finalistas. 

Ganhadora duas vezes da categoria, a Argentina joga as fichas em “El Jockey”. Dirigido pelo Luis Ortega, o mesmo de “O Anjo”, o suspense cheio de estilo acompanha um jóquei rebelde envolvido com mafiosos. A obra teve passagens premiadas em Veneza e San Sebastián, mas, neste momento, corre por fora rumo ao Oscar. 

O México tem um desempenho impressionante nos últimos Oscars: ganhou em 2019 com “Roma” e pegou as últimas quatro shortlists. Logo, vale ficar atento a “Sujo”, drama da Astrid Rondero e Fernanda Valadez. O filme fez uma longa carreira em grandes festivais internacionais, entre eles, Sundance, onde venceu o Grande Prêmio do Júri. Definitivamente, credenciais não faltam. 

Já o Canadá chega forte com “Universal Language”, comédia com toques de absurdo dividida em três histórias que se cruzam com a vida do próprio diretor, o Matthew Rankin, ambientado entre Winnipeg e Teerã. Parece e é maluco, mas, isso não o impediu de ganhar prêmios em Cannes, Toronto, Vancouver e Melbourne. Tem potencial para ficar entre os finalistas. 

 ÁSIA E ÁFRICA

Cruzando o planeta e indo para Ásia, três filmes do continente chegam com mais chances. O cambojano “Meeting with Pol Pot” exibido sem maiores entusiasmos no último Festival de Cannes e o filipino “And So It Begins” estão de olho na shortlist. 

O sempre tradicional cinema japonês quer emplacar “Cloud”, do Kiyoshi Kurosawa. O suspense foi exibido fora de competição em Veneza, onde teve boa recepção junto ao público e crítica. A grande aposta mirando no Oscar, entretanto, será mesmo na força do país. 

Já a África tem como maior chance “Dahomey”, candidato do Senegal. O documentário sobre o retorno de 26 tesouros do país africano levados pela França na época da colonização ganhou o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim. Além disso, a Mati Diop é hoje uma das cineastas mais prestigiadas do continente: ela também comandou o excelente “Atlantics” que bateu na trave para ficar entre os finalistas do Oscar 2020. Pode ser que a Academia considere que chegou a vez dela. 

 EUROPA

Dominando a categoria praticamente de ponta a ponta nos dois últimos Oscars, a Europa traz muitos candidatos pesados. Dos principais nomes, “Grand Tour”, de Portugal, “Armand”, da Noruega, e “Reinas”, da Suíça, miram emplacar primeiro na shortlist. Conseguindo isso, vão tentar as últimas vagas da categoria. 

A Letônia pode conseguir a primeira indicação em Melhor Filme Internacional com uma animação. “Flow” conquistou o Festival de Annecy, com quatro vitórias, incluindo, prêmio do júri e júri popular, além de ter sido selecionado para a Mostra Um Certo Olhar em Cannes. Todo este prestígio deve fazer o longa parar na categoria de Melhor Animação ao lado de gigantes como “Divertida Mente 2”, “Robô Selvagem” e “Moana 2”.  

E justamente a presença em Melhor Animação pode atrapalhar as chances de “Flow” aqui, afinal, não duvido que haja votantes que prefiram deixá-lo concorrer lá em vez daqui. Por outro lado, pode ter uma ala também que queira garanti-lo aqui logo do que arriscar em uma concorrência pesada com obras da Disney, Dreamworks e Netflix. 

Com o Michael Fassbender no elenco, o irlandês “Kneecap” traz o apoio da Sony Pictures Classics, a mesma de “Ainda Estou Aqui”, para chegar ao Oscar. A produção sobre a criação de um inusitado grupo de rap punk que funde a língua inglesa e do país natal pode se destacar por ser aquele filme fora da caixinha, mais pop e menos sério do que seus rivais. Chega ainda credenciado com a vitória do prêmio do público em Sundance. 

Dona de quatro Oscars, a Dinamarca aposta em “The Girl With the Needle”. O drama sobre filhos indesejados e uma rede de adoção clandestina passou por Cannes com sucesso, ainda que sem vitórias. O estilo classudo de direção do Magnus von Horn, a fotografia em preto e branco e o tema muito em voga no mundo compõem um panorama favorável para que venha aí, pelo menos, mais uma shortlist para o país. 

E ainda tem “Vermiglio” da sempre forte Itália. O drama ambientado na Segunda Guerra Mundial sobre um desertor que muda a vida de uma família que vive em uma região de montanha levou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza. Será figurinha certa na shortlist e briga forte por ficar entre os finalistas. 

 OS FAVORITOS

O Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional traz três favoritos. Ainda que seja uma categoria sempre imprevisível, a tendência é que todos eles sejam indicados com o vencedor saindo deles. 

“The Seed of Sacred Fig” surgiu na reta final do Festival de Cannes com pinta de ganhador. Nem mesmo a derrota para “Anora” diminuiu o tenso drama sobre um juiz opressor contra a própria esposa e filhas. A importância da história sobre a repressão às mulheres no Irã e fuga do diretor Mohammad Rasoulof, condenado à prisão no país, colocam o candidato da Alemanha muito forte na briga.  

Aliás, este simbolismo de não poder concorrer pelo país natal também é algo muito forte e que pode beneficiar “The Seed of Sacred Fig”, pensando, claro, em corrida de Oscar. Nos EUA, o filme tem distribuição da Neon, a mesma de “Parasita”, e pode brigar por vagas nos prêmios de roteiro, direção e também Melhor Filme. 

A França, entretanto, promete fazer jogo duro com “Emilia Pérez”. Distribuído pela Netflix, o longa do Jacques Audiard promete aparecer em mais categorias do que apenas Filme Internacional. Chances totais em Filme, Direção, Atuações Femininas e Roteiro. Joga com o hype do elenco fortíssimo, incluindo, as estrelas Zoe Saldaña e Selena Gomez, além de Karla Sofia Gascón, favorita a Melhor Atriz.   

“Emilia Pérez” já venceu o Prêmio do Júri e Melhor Atriz em Cannes e foi o segundo colocado do prêmio do público em Toronto. Deve figurar na lista de melhores de 2024 dos críticos americanos, ou seja, tem pinta de candidato a ser batido. O único ‘porém’ é se implicarem pelo fato de não ser falado totalmente em francês, sendo uma mistura de idiomas e até mesmo na localização geográfica da trama ambientada em grande parte no México. 

Dizer tudo isso significa que acabaram as esperanças de “Ainda Estou Aqui”? Não necessariamente. O caminho será complicado, difícil para uma possível vitória, com certeza, mas, não acho que dê para desanimar. Muito pelo contrário.  

O candidato brasileiro está sendo aclamado de forma praticamente unânime por onde passa, sempre sendo colocado como um dos melhores dos festivais por onde passa. E, aliás, que carreira constrói nesta temporada: estreia em Veneza, passagem por Toronto, Nova York e Londres. “Ainda Estou Aqui” pode se beneficiar de um possível enfraquecimento de “O Quarto ao Lado” que, após a vitória do Leão de Ouro, não conseguiu segurar a pecha de favorito, abrindo um espaço interessante dentro da Sony Pictures Classics. 

Isso se reflete na força que Fernanda Torres ganhou junto à imprensa americana, sempre aparecendo bem cotada para a corrida de Melhor Atriz. Também é viável acreditar que “Ainda Estou Aqui” tenha ótimas chances de aparecer em Melhor Roteiro Adaptado e, bem mais distante, em Ator Coadjuvante com Selton Mello, Direção com Walter Salles e Melhor Filme.   

Só de estar na conversa, entretanto, favorece demais “Ainda Estou Aqui”. E tudo isso que estou falando é pensando em vitória, pois, na minha visão, somente aquelas loucuras da Academia para o Brasil não estar entre os indicados no dia 17 de janeiro do ano que vem. 

 SE AS INDICAÇÕES FOSSEM HOJE, OS FINALISTAS SERIAM… 

  • “Ainda Estou Aqui” (Brasil)
  • “The Seed of the Sacred Fig” (Alemanha)
  • “Emilia Pérez” (França)
  • “Vermiglio” (Itália)
  • “Dahomey” (Senegal)